No Vale de San Joaquin, na Califórnia, agricultores passaram décadas plantando algodão, pistaches e amêndoas em áreas secas. Quase ninguém - ou ninguém mesmo - lembrava que um lago gigantesco permanecia adormecido sob aquelas lavouras. Em 2023, o Tulare Lake voltou a aparecer.
“É realmente difícil imaginar isso hoje”, diz Vivian Underhill, ex-pesquisadora da Northeastern University e especialista nesse fenômeno fora do comum. O espanto faz sentido: antes de desaparecer em 1890, o Tulare Lake era o maior lago de água doce a oeste do Mississippi. Ele se estendia por mais de 160 quilômetros e chegava a quase 50 quilômetros de largura. Era tão imenso que barcos a vapor conseguiam transportar produtos agrícolas de Bakersfield até San Francisco - aproximadamente 500 quilômetros de navegação por rotas interiores.
Antes de 1890: o gigante Tulare Lake
Durante milênios, esse lago ocupou o seu próprio grande vale de drenagem. A dimensão do espelho d’água, a navegação possível e a ligação com a produção agrícola da região transformavam o Tulare Lake em uma peça central do território.
Como o lago foi drenado e o que se perdeu
Depois, veio o vazio. Em poucas décadas, o ser humano drenou esse lago colossal. Em busca de mais terras para cultivo, a Califórnia conduziu um amplo programa de drenagem. Centenas de canais de irrigação passaram a desviar a água que descia da Sierra Nevada. Quem conseguia secar uma área recebia a propriedade do lote - um incentivo extremamente eficaz, mas também devastador do ponto de vista ambiental e humano.
Com a evaporação do lago, não desapareceu apenas a água. Foram levadas junto tradições antigas do povo Tachi Yokut, que chamava o lago de “Pa’ashi”.
E a natureza retomou seu espaço…
Para que esse “fantasma” voltasse, foi necessária uma sequência de extremos meteorológicos. Na primavera de 2023, sucessivos “rios atmosféricos” despejaram volumes recordes de chuva e neve sobre a Califórnia. Na Sierra Nevada, o manto de neve, excepcionalmente espesso, derreteu rapidamente com a combinação de novas precipitações e o aquecimento típico do início da estação.
Com sua “memória” geológica, a água acabou reencontrando o caminho do antigo bolsão onde o Tulare Lake dominou por eras.
Agricultura no condado de Kings sob a água
No auge, no verão de 2023, o lago reconstituído chegou a cobrir cerca de 50.000 hectares. Mais de 10% do condado de Kings ficou submerso. Plantações de algodão e tomate sumiram sob a inundação. Estradas, casas e estruturas de energia: tudo acabou engolido.
Ainda assim, aquilo que muita gente descreveu como uma enchente desastrosa foi visto por outros como um renascimento. “A maioria da mídia falou disso como uma catástrofe”, afirma Vivian Underhill. “Não quero minimizar as perdas humanas e materiais, mas não foi apenas uma perda. Foi também um renascimento.”
Com a água, a vida voltou. Aves retornaram em peso: pelicanos, patos, garças, corujas-buraqueiras. Espécies migratórias que antes faziam escala no Tulare Lake voltaram a usar o local como parada histórica. “O que continua a me maravilhar é que elas sabem como reencontrar o lago”, diz a pesquisadora. “É como se estivessem procurando por ele desde sempre.”
Rãs reapareceram nas margens, e as taboas - ausentes havia gerações - voltaram a brotar.
Para os Tachi Yokut, o retorno de Pa’ashi significou muito mais do que um acontecimento natural: foi uma reconexão espiritual com tradições e uma chance real de retomar práticas culturais que haviam ficado, por muito tempo, fora de alcance.
… mas não por muito tempo
Infelizmente, o alívio durou pouco. A partir de fevereiro de 2024, o lago começou a encolher de novo. Evaporação, menor aporte de água e esforços de drenagem fizeram efeito. Dos 50.000 hectares, a área caiu para cerca de 1.800 hectares. Em abril de 2024, Doug Verboon, supervisor do condado de Kings e também agricultor, declarou: “Não há mais lago. Restou um pouco de terreno úmido, mas nada significativo.”
Essa foi a quinta tentativa de retorno do Tulare Lake desde 1890. O lago já havia reaparecido na década de 1930, em 1960 e, depois, em 1983. Em todas as vezes, a intervenção humana voltou a prevalecer. Mas climatologistas alertam: com as mudanças climáticas, eventos de precipitação extrema tendem a se multiplicar. Os rios atmosféricos devem se tornar mais frequentes e mais intensos.
“Seria do interesse da Califórnia reconhecer que o Tulare Lake quer ficar. E que haveria benefícios econômicos importantes em deixá-lo existir.” diz Vivian Underhill.
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