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Estudo novo revela que a aranha-de-teia-em-funil de Sydney (Atrax robustus) na verdade são três espécies

Cientista segurando placa de Petri com aranhas grandes em laboratório moderno iluminado pela janela.

Quase todo australiano aprende, ainda na infância, a ter cuidado com a aranha-de-teia-em-funil.

Esses aracnídeos grandes, pretos e conhecidos pelo comportamento agressivo vivem sobretudo ao longo da costa leste do país. Eles se escondem em tocas revestidas por seda e dali partem para atacar pequenos animais dos quais se alimentam. E, por uma peculiaridade da evolução, produzem um veneno mais perigoso para seres humanos do que o de qualquer outra aranha.

Uma “única” aranha e um estudo que mudou a história

A Austrália abriga dezenas de espécies de aranha-de-teia-em-funil, mas a mais temida sempre foi a aranha-de-teia-em-funil de Sydney (Atrax robustus), associada à faixa costeira de Nova Gales do Sul. Só que isso talvez nunca tenha sido exatamente verdade. Um estudo novo e detalhado concluiu que o que era tratado como uma única espécie, na realidade, corresponde a três.

Na prática, isso significa que existem duas espécies adicionais dentro do grupo do que é considerado o conjunto de aranhas mais venenosas do mundo. E, ao contrário do que parece, a notícia é positiva: separar corretamente essas espécies deve ajudar pesquisadores a descrever e compreender com mais precisão o veneno que cada uma produz.

O enigma de A. robustus e o “Big Boy”

O conjunto de aranhas antes reunido sob o nome A. robustus já vinha intrigando cientistas havia algum tempo. Apesar de estarem todas “no mesmo saco”, observava-se variação regional na aparência. Ao norte de Sydney, na região de Newcastle, apareciam exemplares especialmente grandes - incluindo o maior macho já atribuído à espécie, um gigante apelidado de "Big Boy".

Para esclarecer a origem dessa diversidade, uma equipa liderada pela aracnóloga Stephanie Loria, do Instituto Leibniz para a Análise das Mudanças na Biodiversidade, na Alemanha, decidiu investigar: seriam apenas adaptações a habitats distintos ou um sinal de diferenças mais profundas dentro do grupo?

Com análises genéticas, os pesquisadores descobriram que o que chamávamos de A. robustus incluía, na verdade, duas outras espécies. A partir daí, também foi possível delimitar a distribuição e o tipo de habitat associado a cada uma.

Distribuição das três espécies: Sydney, Southern Sydney e Newcastle

No recorte atualizado, o habitat de A. robustus fica concentrado na área de Sydney, estendendo-se ao norte até a Central Coast, ao sul até o Georges River e a oeste até a região de Baulkam Hills. Há ainda registos esparsos e isolados apenas um pouco mais a oeste e ao sul.

Mais ao sul e ao oeste vive a aranha-de-teia-em-funil do sul de Sydney (Atrax montanus), descrita originalmente em 1914 e que, mais tarde, acabou incorporada a A. robustus. O novo trabalho mostra que ela sempre foi, de facto, uma aranha distinta.

Ao norte aparece uma espécie totalmente recém-identificada: a aranha-de-teia-em-funil de Newcastle (Atrax christenseni). É nesse grupo que estão os “parrudos”: o "Big Boy", ao que tudo indica, era uma aranha-de-teia-em-funil de Newcastle, e outros exemplares grandes da região - como a aranha recuperada recentemente e chamada "Hemsworth" - também haviam sido atribuídos à espécie errada.

O que muda para veneno, soro e conservação

Classificar corretamente essas aranhas nas suas espécies reais deve alterar de forma importante o entendimento sobre o seu veneno letal - que, por razões ainda não totalmente claras, é perigoso apenas para os pequenos animais que elas caçam e para primatas, incluindo humanos.

Mesmo sendo o veneno mais mortal do mundo, ninguém na Austrália morreu por picada de aranha-de-teia-em-funil desde a introdução de um soro antiveneno em 1981, apesar de haver 30 a 40 casos registados por ano. Isso acontece porque o antiveneno é um tratamento extremamente eficaz - mas a nova distinção entre espécies pode ajudar a refiná-lo.

A razão é que o veneno dessas aranhas é uma mistura complexa de peptídeos, capaz de variar de espécie para espécie - ou até de uma ocasião para outra. E não é só o antiveneno que chama a atenção. O veneno de aranha-de-teia-em-funil tem possíveis usos que vão de pesticidas naturais a medicamentos. Entender por que essas aranhas produzem tais combinações pode permitir uma extração de veneno mais eficiente, melhorar o aproveitamento e ajudar a esclarecer a função do próprio veneno.

Há ainda um lado mais preocupante: tudo indica que as populações de aranha-de-teia-em-funil estão em declínio. Embora assustem as pessoas, elas desempenham um papel relevante nos ambientes em que vivem. Compreender melhor as diferenças entre elas deve apoiar os cientistas que tentam protegê-las das ameaças que enfrentam num mundo em transformação.

A pesquisa foi publicada na revista BMC Ecologia e Evolução.


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