Três dentes fósseis minúsculos encontrados no Colorado estão mudando o que os cientistas achavam que sabiam sobre os parentes mais antigos dos primatas. Os dentes são de Purgatorius, um pequeno mamífero arborícola que viveu pouco depois de os dinossauros desaparecerem.
Até aqui, os fósseis desse animal só tinham sido registrados muito mais ao norte.
A nova ocorrência indica que esses parentes dos primatas se espalharam pelo oeste da América do Norte mais rápido do que se imaginava, trazendo pistas sobre como os mamíferos se expandiram após a extinção em massa.
Encontrando dentes minúsculos de Purgatorius
Os fósseis apareceram em sedimentos antigos na Bacia de Denver, no Colorado - uma área conhecida por preservar formas de vida dos primeiros momentos após a extinção dos dinossauros.
No meio do material coletado, estavam três dentes muito pequenos. Ao comparar cristas e cúspides características com exemplares já descritos, paleontólogos identificaram o mesmo padrão observado em Purgatorius, um dos parentes mais próximos conhecidos dos primeiros primatas.
A identificação foi feita pelo paleontólogo Stephen Chester, do CUNY Graduate Center (CUNY), que há anos pesquisa parentes primitivos dos primatas.
Antes dessa descoberta, fósseis de Purgatorius eram conhecidos apenas bem mais ao norte, sobretudo em Montana e Saskatchewan.
Essa lacuna deixava os pesquisadores em dúvida: o animal realmente teria evitado regiões mais ao sul ou o registro fóssil simplesmente não o havia capturado?
Um parente primitivo dos primatas ganha forma
Vivendo no começo do período logo após a extinção dos dinossauros, Purgatorius ocupa uma posição muito próxima do início da linhagem dos primatas.
Comparações envolvendo dentes e ossos do tornozelo indicam adaptações para escalar e para esmagar alimentos variados, em vez de fatiar carne.
Ainda existe debate sobre ele ser ou não um primata verdadeiro; mesmo assim, muitas análises o colocam imediatamente fora do grupo dos primatas mais antigos.
Mesmo dentes isolados podem carregar uma “assinatura” de espécie, porque as dobras do esmalte se formam antes de o animal mastigar qualquer coisa. Quando o esmalte endurece, essas cristas ficam permanentes, o que permite aos paleontólogos comparar formas entre locais e idades diferentes.
Com cerca de 2 milímetros (0,08 polegada) de largura, os dentes do Colorado exibiam uma combinação de saliências e depressões diferente das formas já nomeadas.
Ainda assim, como surgiram apenas poucos fragmentos, a equipe evitou batizar uma nova espécie sem encontrar mandíbulas ou outros ossos adicionais.
Rastros de primatas pela América do Norte
A presença desses dentes no Colorado cria uma ponte entre os sítios fósseis do norte e bacias mais ao sul, ajudando a esclarecer como os primeiros parentes dos primatas se dispersaram pela América do Norte.
As rochas que guardavam os dentes se formaram há cerca de 65,4 milhões de anos, aproximadamente 600 mil anos após o impacto do asteroide que encerrou a era dos dinossauros.
Já os fósseis mais antigos de Montana aparecem por volta de 140 mil anos depois da extinção, o que sugere que o grupo pode ter surgido mais ao norte.
Corral Bluffs preservou camadas depositadas logo após o impacto, oferecendo aos pesquisadores uma linha do tempo incomumente detalhada para os mamíferos iniciais.
Ao posicionar os dentes do Colorado dentro dessas camadas, fica evidente que eles surgem centenas de milhares de anos depois do limite de extinção.
“Essa descoberta ajuda a preencher uma lacuna no entendimento da geografia e da evolução dos nossos parentes mais antigos dos primatas após a extinção dos dinossauros”, disse Chester.
Em conjunto, as evidências apontam para uma expansão gradual rumo ao sul, conforme as florestas voltavam e as cadeias alimentares se reorganizavam depois da extinção em massa.
Fósseis de dentes minúsculos passaram despercebidos
Por mais de um século, caçadores de fósseis em geral recolheram sobretudo o que conseguiam ver no chão. Esse hábito cria viés de amostragem: certos fósseis ficam ocultos não por serem raros, mas porque ninguém peneira os sedimentos que os contêm.
Em várias bacias do sul, equipes raramente empregaram lavagem com malha fina; com isso, dentes diminutos podem se perder no sedimento e permanecer invisíveis por décadas.
Assim, o Colorado pode ter parecido “vazio” não porque parentes primitivos dos primatas faltassem, e sim porque os fósseis eram pequenos demais para serem percebidos na superfície.
Em vez de depender de achados superficiais, o novo estudo aplicou a lavagem em peneira, uma técnica que passa o sedimento por uma malha fina para reter fósseis pequenos.
Uma bolsa de quase US$ 3 milhões da Fundação Nacional de Ciências (NSF) financiou estudantes que separaram baldes de sedimento no laboratório de Chester.
“Os nossos resultados demonstram que fósseis pequenos podem ser facilmente deixados passar”, disse Chester.
Ampliar a lavagem em peneira em grande escala para mais sítios pode revelar outros dentes e alterar a forma como os cientistas entendem a diversidade dos primeiros parentes dos primatas.
Florestas ajudam mamíferos a se espalhar
Logo após a extinção, novas florestas se expandiram por partes do continente, criando rotas para mamíferos que viviam nas árvores. A vida arborícola depende de galhos, abrigo e alimento sazonal, e Purgatorius provavelmente se alimentava de insetos e frutas.
Alguns pesquisadores já associaram a lacuna ao sul a uma recuperação lenta das florestas, mas fósseis de plantas indicam que a vegetação retornou rapidamente.
Sob essa perspectiva, os dentes do Colorado ficam mais fáceis de entender, e os métodos de coleta parecem ter sido o principal obstáculo.
Dentes de Purgatorius e a evolução dos primatas
De volta ao laboratório, cada dente levou a equipe a procurar com ainda mais atenção por mandíbulas, fragmentos de crânio e outros ossos que possam confirmar a identidade do animal.
Levar a lavagem em peneira para outras bacias do sul também pode ajudar a capturar dentes minúsculos que buscas na superfície quase nunca recuperam.
“Com uma busca mais intensiva, especialmente usando técnicas de lavagem em peneira, sem dúvida vamos descobrir muitos outros espécimes importantes”, disse Chester.
Até que apareçam partes maiores do esqueleto, os dentes do Colorado seguem como indícios fortes - não como respostas definitivas. Ainda assim, esse pequeno conjunto já conecta registros do norte com bacias ao sul e refina a cronologia da dispersão inicial dos parentes dos primatas.
As próximas temporadas de campo deverão indicar se o animal do Colorado representa uma nova espécie ou apenas um visitante raro que avançou mais ao sul do que os cientistas esperavam.
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