Um coaxo de sapo pode parecer algo simples. Só que, na natureza, esse som carrega informações valiosas. Diversos animais recorrem ao som para atrair parceiros e para defender território.
Um chamado pode dar pistas sobre tamanho corporal, saúde e nível de energia. Por isso, o som tem um peso enorme na forma como os animais escolhem com quem vão se reproduzir.
Pesquisadores continuam investigando como esses sinais funcionam em ambientes naturais. Um grupo da Florida Atlantic University (FAU) examinou recentemente como parasitas influenciam os chamados de sapos.
O trabalho se concentrou em pererecas-verdes e mostrou que parasitas conseguem alterar tanto os sinais de acasalamento quanto as escolhas das fêmeas.
Som como sinal no mundo animal
Em todo o reino animal, muitas espécies dependem do som para se comunicar. Aves cantam. Insetos zumbem. Sapos vocalizam alto perto de lagoas e áreas alagadas. Esses sons ajudam a atrair parceiros e também a disputar espaço com rivais.
Na ciência, esses sons recebem o nome de cantos de anúncio. Eles reúnem várias características - como altura (frequência), ritmo e duração - e cada uma delas pode revelar algo sobre quem está chamando.
Por exemplo, chamados mais graves costumam vir de animais maiores. Em muitas espécies, as fêmeas preferem esses sons mais baixos porque podem indicar força ou boa condição física.
Por esse motivo, o som é peça central na seleção sexual, o processo que molda como os animais competem e se reproduzem.
Parasitas e seus efeitos ocultos
Parasitas podem afetar esses sinais de diversas formas. Quando um animal é infectado, o organismo precisa gastar energia para combater a infecção, o que diminui a energia disponível para outras atividades.
Vocalizar exige muito do corpo. Sapos precisam inflar o saco vocal e emitir sons repetidas vezes. Se o nível de energia cai, os chamados podem ficar mais curtos ou menos intensos.
Além disso, parasitas podem atrapalhar a comunicação de maneira física. Alguns vivem em partes do corpo relacionadas à produção do som ou à audição, o que pode interferir na forma como os animais emitem ou percebem os chamados.
Ainda assim, os efeitos nem sempre são diretos. Há parasitas que se disseminam por interações entre predadores e presas.
Animais que consomem mais presas podem acumular mais parasitas ao longo do tempo. Assim, indivíduos fortes ou bem-sucedidos na caça podem carregar mais parasitas do que os mais fracos.
Parasitas em pererecas-verdes
Para investigar essa relação complexa, os cientistas estudaram a perereca-verde, também chamada de Dryophytes cinereus.
Durante a estação reprodutiva, os machos se concentram ao redor de lagoas e áreas úmidas. Eles ficam sobre plantas e inflam o saco vocal para emitir chamados altos, com um timbre semelhante a uma buzina.
As fêmeas escutam com atenção antes de escolher um parceiro. Em geral, elas preferem chamados com frequências mais baixas, ritmos mais rápidos e maior duração - atributos que costumam estar associados a machos maiores ou mais vigorosos.
O estudo também direcionou o foco para um parasita conhecido como verme-da-língua de sapo, Halipegus occidualis. Esse parasita se instala na boca e na garganta dos anfíbios.
A infecção ocorre quando o sapo se alimenta de insetos, como libélulas e donzelinhas, que carregam o parasita. Em alguns indivíduos, vários vermes podem viver ao mesmo tempo dentro da cavidade oral.
Registrando os cantos em ambiente natural
Os pesquisadores gravaram os chamados em lagoas de reprodução durante os meses de verão. Depois de registrar cada macho, a equipe abriu cuidadosamente a boca do animal e contou quantos parasitas havia ali.
Também foram feitas medidas de tamanho corporal, e os chamados foram analisados com software de áudio. Os cientistas avaliaram diferentes aspectos: frequência do chamado, duração, padrões de pulsos e taxa de emissão.
Os machos foram separados em três grupos conforme o nível de infecção. Um grupo não tinha parasitas. Outro apresentava infecção moderada, com cinco a oito vermes. O terceiro reunia infecções intensas, com mais de nove vermes.
Para identificar as preferências das fêmeas, a equipe realizou experimentos de reprodução sonora (playback). Neles, caixas de som tocavam dois chamados diferentes ao mesmo tempo, enquanto uma fêmea era posicionada nas proximidades.
Os pesquisadores então registravam qual som a fêmea se aproximava.
Como os parasitas alteraram os chamados
Os resultados indicaram que os parasitas afetaram várias características dos cantos. Pererecas com maior carga parasitária frequentemente emitiam chamados mais graves.
Essas frequências mais baixas costumam agradar as fêmeas, já que, em geral, são produzidas por machos maiores.
Por outro lado, os indivíduos com infecção intensa faziam chamados mais curtos e com menos pulsos. Chamados curtos normalmente sinalizam menor resistência e menos energia disponível.
Os pesquisadores observaram ainda outro padrão: pererecas maiores tendiam a carregar mais parasitas. Como indivíduos grandes normalmente consomem mais presas, podem ter mais chance de adquirir infecções ao longo do tempo.
Parasitas criam um dilema no acasalamento
“Os parasitas nem sempre contam uma história simples sobre saúde ou fraqueza”, disse a Dra. Sarah R. Goodnight, primeira autora do estudo.
“Nesse sistema, os sapos mais bem-sucedidos em encontrar alimento também podem ser os mais propensos a adquirir parasitas. Isso significa que as fêmeas estão avaliando sinais que, ao mesmo tempo, podem anunciar força e risco.”
Esse cenário coloca as fêmeas diante de uma decisão difícil. Um chamado grave pode indicar vigor, mas também pode sugerir uma carga maior de parasitas.
Como as fêmeas escolhem parceiros
Os experimentos de playback mostraram padrões inesperados. Quando as fêmeas ouviam chamados de machos com infecção intensa e de machos sem infecção, elas geralmente escolhiam os chamados dos não infectados.
Entretanto, ao comparar machos sem infecção com machos moderadamente infectados, as fêmeas frequentemente preferiam os moderadamente infectados.
Em outro teste, as fêmeas escutaram chamados de machos grandes infectados e de machos menores sem infecção. Nesse caso, não houve preferência clara.
Fêmeas consideram vários sinais ao mesmo tempo
Os achados indicam que as fêmeas levam em conta múltiplos sinais simultaneamente ao decidir por um parceiro.
“A escolha de parceiro raramente se baseia em um único traço”, afirmou o coautor do estudo, Dr. Michael W. McCoy.
“Nossos resultados mostram que os parasitas podem remodelar a informação que os animais usam ao escolher parceiros, ao alterar de forma sutil vários aspectos do chamado de um macho.”
“As fêmeas podem estar respondendo a diversos sinais ao mesmo tempo, alguns ligados a características desejáveis, como tamanho, e outros sugerindo infecção. Entender essa complexidade é crucial para explicar como a seleção sexual realmente funciona em populações naturais.”
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