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Como as metas climáticas da China podem tornar o óleo de palma mais sustentável

Mulher usando tablet para monitorar plantação de palma com indústria ao fundo em dia ensolarado.

O óleo de palma está em toda a parte, escondido em alimentos, cosméticos, detergentes e combustíveis. E, do ponto de vista produtivo, ele é impressionantemente eficiente: por hectare, rende muito mais óleo do que culturas como a soja.

Só que essa eficiência veio acompanhada de um custo alto, repetidamente associado ao desmatamento, à degradação de áreas de turfa, à perda de biodiversidade e a uma grande pegada de carbono.

Um estudo recente levanta uma pergunta direta: os compromissos climáticos da China poderiam, na prática, ajudar a tornar essa indústria mais limpa?

A análise concluiu que o óleo de palma pode contribuir com metas climáticas - mas apenas quando a produção evita florestas e áreas de turfa.

Para isso, também são indispensáveis governança de verdade, monitoramento consistente e tecnologia que seja de facto acessível para ser usada em larga escala.

O poder de compra pode impulsionar mudanças

“China is not only a major palm oil market, but also a potentially powerful driver of change across the international supply chain,” disse o autor correspondente Zhihua Mu, da Qinghai University e do Hainan Seed Industry Laboratory.

“By improving procurement standards, traceability, carbon accounting, and technology cooperation, China can help encourage palm oil production that is more transparent, resource-efficient, and climate responsible.”

Esse potencial de influência se explica, sobretudo, pelo peso nas compras. A China é o segundo maior importador de óleo de palma do planeta e obtém a maior parte do seu abastecimento da Indonésia e da Malásia.

O ingrediente aparece com frequência em produtos alimentícios no país, como macarrão instantâneo, itens de padaria e snacks fritos. Ele também é recorrente em cosméticos e bens industriais.

Com tamanha procura concentrada num único mercado, até mudanças modestas nos padrões de compra chineses podem repercutir ao longo de toda a cadeia - até chegar às plantações do outro lado do mundo.

Ainda há uma grande lacuna climática

A China se comprometeu a atingir o pico das emissões de carbono antes de 2030 e a alcançar a neutralidade de carbono antes de 2060 - metas ambiciosas que já influenciaram fortemente diversas políticas internas.

No entanto, a revisão aponta um ponto cego evidente: a política climática atual se concentra sobretudo nas emissões geradas dentro das fronteiras chinesas.

Com isso, dá bem menos atenção ao carbono liberado fora do país - em locais como Indonésia e Malásia - durante o cultivo e o processamento das commodities que a China importa. O óleo de palma encaixa-se exatamente nessa lacuna.

Essa omissão cria entraves concretos. A China ainda não possui regras unificadas e obrigatórias de sustentabilidade para o óleo de palma importado.

Além disso, a certificação cobre apenas uma fração limitada do mercado, e checar as declarações sobre a cadeia de suprimentos costuma ser realmente difícil. O custo para cumprir requisitos também pode, na prática, excluir pequenos produtores e agricultores familiares.

Até os métodos padrão de contabilização de carbono frequentemente deixam de fora emissões associadas à conversão de terras no exterior. Como consequência, uma parcela relevante da pegada climática real do óleo de palma não aparece nos números oficiais.

A tecnologia pode ajudar a rastrear o óleo de palma

Os pesquisadores destacam alguns pontos de partida: certificação, compras verdes, abastecimento livre de desmatamento e rastreabilidade digital mais robusta.

Ao combinar monitoramento por satélite, registos com tecnologia de cadeia de blocos e dados da cadeia de suprimentos, empresas e reguladores poderiam, de forma realista, rastrear o óleo de palma desde uma plantação específica até a gôndola.

Mas os autores fazem questão de incluir um alerta: tecnologia inteligente, por si só, não resolve.

Sem padrões consistentes, verificação independente e fiscalização forte, mesmo o sistema de rastreio mais sofisticado gera informação que ninguém é obrigado a utilizar.

Resíduos do óleo de palma têm potencial real

A revisão também traz um fio mais otimista: os resíduos do óleo de palma podem virar a base de uma bioeconomia circular de verdade.

Cachos vazios, cascas de palmiste, fibras remanescentes e efluentes das fábricas não precisam simplesmente acumular-se como lixo. Esses materiais podem ser convertidos em eletricidade, biogás, biocombustíveis, biocarvão e outros produtos úteis.

Entre as alternativas disponíveis, a captura de metano e o aproveitamento de biomassa aparecem como os ganhos mais viáveis no curto prazo.

São soluções que já funcionam na prática, em vez de ideias novas que ainda precisariam ser comprovadas.

Onde as palmeiras de óleo crescem faz diferença

Um ponto que a revisão examina com cuidado é a alegação de que as plantações de dendezeiro funcionariam como sumidouros de carbono.

O dendezeiro cresce rapidamente e armazena carbono no tronco, nas folhas, nas raízes e no solo ao redor. Porém, se isso ajuda ou não o clima depende quase totalmente do que havia na área antes da implantação da plantação.

Quando o cultivo ocorre em terra já degradada, pode haver aumento do armazenamento de carbono em comparação com a condição anterior.

Por outro lado, se florestas tropicais forem derrubadas ou áreas de turfa forem drenadas para abrir espaço, forma-se o que os pesquisadores chamam de dívida de carbono. Essa dívida pode ser tão elevada que levaria décadas para ser paga - assumindo que algum dia seja totalmente compensada.

Tornando o óleo de palma mais sustentável

Os autores resumem as recomendações em três prioridades centrais. A primeira é a urgência de regras mais rígidas de sustentabilidade e rastreabilidade especificamente para o óleo de palma importado.

A segunda é que cadeias internacionais de suprimento passem a integrar uma contabilização de carbono que capture as emissões com precisão, em vez de simplesmente ignorá-las.

A terceira é que governos e líderes do setor mantenham investimentos em tecnologias já comprovadas, como captura de metano, conversão de resíduos e ferramentas práticas de monitoramento.

“There is no single solution that can make palm oil sustainable,” afirmou Mu. “Meaningful progress will require coordinated action across governments, companies, financial institutions, producers, and consumers.”

A revisão coloca as metas de Duplo Carbono da China como uma alavanca relevante para remodelar padrões do óleo de palma em escala global, dado o tamanho do mercado que o país movimenta.

Mas esse potencial vem com uma ressalva óbvia: sem salvaguardas reais e responsabilização, a distância entre promessas climáticas no papel e o que acontece nos países produtores de óleo de palma não vai diminuir sozinha.

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