Pesquisas recentes indicam que a poluição associada a navios de cruzeiro pode ir além de tornar o ar mais difícil de respirar. Ela também pode reduzir a capacidade do organismo de se defender de vírus, como o resfriado comum e a COVID-19.
A preocupação principal envolve partículas ultrafinas liberadas quando embarcações queimam combustível enquanto estão atracadas. Essas partículas minúsculas são muito menores do que a poeira comum.
Justamente por serem tão pequenas, conseguem alcançar regiões profundas dos pulmões e talvez até ultrapassar essa barreira, chegando à corrente sanguínea.
Há décadas, cientistas relacionam a poluição do ar a problemas respiratórios e cardiovasculares, mas este estudo destaca mais um possível risco à saúde.
Partículas minúsculas, efeito enorme
Os pesquisadores analisaram o ar ao redor de um porto movimentado e identificaram material particulado ultrafino com elementos-traço associados ao combustível usado na navegação.
Em testes de laboratório, essas partículas elevaram sinais inflamatórios e, ao mesmo tempo, enfraqueceram as defesas naturais das células contra infecções virais.
“Nesta pesquisa identificamos uma ‘assinatura’ clara de poluição do ar proveniente de navios de cruzeiro queimando combustível nos portos”, afirmou o autor sênior do estudo, Matthew Loxham, professor de Biologia e Toxicologia Respiratória na University of Southampton.
“As partículas ultrafinas presentes nessas emissões podem penetrar mais profundamente nos pulmões do que tamanhos maiores de material particulado e podem conseguir entrar na corrente sanguínea, mas partículas desse tamanho são essencialmente não regulamentadas e, em geral, não são monitoradas.”
Os cientistas também observaram que a exposição de células a essas partículas - e ao vanádio, o elemento mais enriquecido nelas - desencadeou inflamação e favoreceu a replicação de vírus.
De onde vem essa poluição
A equipe realizou uma investigação detalhada da poluição do ar em cinco pontos ao redor do porto de Southampton.
Entre os locais avaliados estavam um portão de doca utilizado por veículos de carga pesada, um terminal de navios porta-contêineres e um terminal de cruzeiros com grande fluxo. Além disso, foram coletadas amostras em um ponto de comparação a cerca de 5,0 km de distância do porto.
As coletas ocorreram do fim da primavera ao início do verão e, novamente, no inverno - período em que muito menos navios de cruzeiro visitaram o porto.
No terminal de cruzeiros, durante o verão mais movimentado, apareceram níveis mais altos de vanádio, níquel e cobalto em partículas finas e ultrafinas do que no inverno.
Esses elementos-traço, de modo geral, também foram encontrados em concentrações mais elevadas em toda a área portuária do que no local de comparação.
“Observamos aumentos de concentração quando o vento vinha da direção dos navios de cruzeiro e quando a presença de navios de cruzeiro era maior”, disse o autor principal, Dr. Nat Easton, da University of Southampton.
“As concentrações mais altas no terminal de cruzeiros do que no restante do porto talvez se devam a emissões maiores de navios de cruzeiro em ‘hotelaria’ (mantidos atracados com serviços a bordo) em comparação com navios de carga. Mas diferenças na origem do combustível e no tempo de ocupação do berço também podem ter um papel.”
O que aconteceu no laboratório
No laboratório, a equipe expôs células do revestimento pulmonar a partículas ultrafinas coletadas durante a temporada de maior movimento de cruzeiros. Nessas células, apareceram sinais mais intensos de inflamação e uma resposta antiviral mais fraca.
Os pesquisadores também investigaram com mais detalhe o vanádio, um metal frequentemente presente no óleo combustível pesado utilizado por navios.
Células epiteliais brônquicas de doadores saudáveis foram infectadas com rinovírus humano - responsável pelo resfriado comum e frequentemente associado a hospitalizações após crises de asma. O estudo também empregou um modelo de infecção por COVID-19.
Quando as células foram expostas ao vanádio, ambos os vírus passaram a produzir mais cópias.
Os resultados indicam que o vanádio reduz a capacidade das células de impedir a replicação viral, o que pode aumentar a gravidade da infecção e facilitar sua disseminação.
Por que essas descobertas importam
Muitos portos ficam próximos a bairros onde milhares de pessoas moram e trabalham diariamente.
Embora o transporte marítimo seja parte relevante da economia global, as emissões de navios vêm se tornando uma preocupação crescente de saúde pública.
Portos modernos estão cada vez mais avaliando tecnologias mais limpas, incluindo a conexão de navios atracados à energia elétrica em terra. Com isso, a embarcação pode desligar os motores em vez de queimar combustível enquanto permanece no cais.
Os autores afirmam que os achados reforçam iniciativas para reduzir emissões em áreas portuárias densamente povoadas. Entre as medidas citadas estão energia elétrica em terra mais limpa, combustíveis alternativos escolhidos com cuidado e tecnologia aprimorada de controle de emissões.
Eles também defendem que as partículas ultrafinas sejam monitoradas com muito mais atenção, para que reguladores tenham melhores informações e possam proteger comunidades que vivem perto de portos ao redor do mundo.
O estudo completo foi publicado na revista Environment International.
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