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Rios do Himalaia ficam perigosamente instáveis com degelo e pergelissolo em descongelamento

Rio de montanha com geleira, bandeiras coloridas, mapas e equipamentos geotécnicos na margem rochosa.

Quase dois bilhões de pessoas dependem de rios alimentados por geleiras do Himalaia e pela água do degelo da neve.

Esses cursos d’água estão entre os mais importantes do planeta: abastecem cidades com água potável, sustentam a irrigação e geram energia hidrelétrica em grandes áreas do Sul e do Leste da Ásia.

Um novo estudo indica, porém, que esses rios estão ficando perigosamente instáveis.

Em comparação com qualquer outro período de observação registrada, eles estão mudando de trajeto mais depressa, elevando os riscos para comunidades vizinhas, áreas agrícolas e infraestrutura.

A pesquisa foi liderada pelo professor Chengshan Wang e pelo Dr Zhongpeng Han, da China University of Geosciences, em Pequim, e pelo Dr Lin Zhipeng, da Universidade de Sichuan.

Para chegar aos resultados, a equipe avaliou mudanças em três grandes bacias hidrográficas do Himalaia por meio de imagens de satélite e observações de campo ao longo de quatro décadas, de 1980 a 2020.

Eventos dramáticos em rios do Himalaia

Rios se movem: canais se deslocam, curvas migram, margens são erodidas e depois se recompõem. O que o estudo evidencia é que esse comportamento natural está se acelerando de forma marcante.

Em toda a área analisada, as taxas de migração dos rios aumentaram 33% entre 1980 e 2020.

Nas curvas que conseguiam se deslocar livremente, sem a restrição do relevo ao redor, o salto foi de quase 97%.

O grupo examinou 1,079 curvas de rio, totalizando cerca de 1,582 quilômetros de canais que atravessam solo congelado.

Além de medir a migração geral, os pesquisadores também acompanharam episódios mais extremos. Entre eles, os “cutoffs”, quando o rio abandona parte do canal antigo e abre um novo caminho mais curto.

Também foram registrados casos de avulsão, em que o rio, de maneira súbita, passa a correr por um trajeto totalmente diferente. Em alguns trechos, houve alternância entre canais únicos e múltiplos.

Ao longo do período estudado, todos esses eventos se tornaram significativamente mais frequentes.

Rios em um clima em transformação

Desde a década de 1980, o Himalaia vem aquecendo a uma taxa quase duas vezes maior do que a média global. Esse aquecimento está desestabilizando os rios por duas vias interligadas - e, combinadas, elas se mostram mais fortes do que cada uma isoladamente.

A primeira é direta: mais água de degelo. À medida que as geleiras encolhem e o pergelissolo descongela, aumenta o volume de água e sedimentos que entra nos sistemas fluviais.

Quando um rio passa a transportar mais material do que consegue acomodar, seu comportamento fica mais difícil de prever e de conter.

A segunda via é mais discreta, mas possivelmente mais determinante: o solo congelado que ajuda a manter as margens no lugar está cedendo.

Com o amolecimento do pergelissolo, as margens antes “presas” perdem coesão e ficam propensas a desmoronar, o que facilita muito a migração lateral do rio para novos canais.

Uma paisagem vulnerável

O estudo aponta ainda um fator que torna o Himalaia especialmente frágil: a quase ausência de vegetação.

No Ártico - onde o descongelamento do pergelissolo também está remodelando os rios - as raízes das plantas ajudam a prender o solo e a reduzir a erosão.

Já no Himalaia, a cobertura vegetal é muito mais rala. Assim, quando o solo congelado abaixo cede, praticamente não há nada para manter as margens estruturadas.

Implicações além do Himalaia

Isso não é uma constatação científica abstrata. Trata-se de uma ameaça direta a algumas das regiões mais densamente povoadas do planeta.

Rios instáveis transbordam com mais frequência e com menor previsibilidade. Eles erodem áreas agrícolas e geram perigos associados a sedimentos, capazes de soterrar lavouras e assorear cursos d’água.

Além disso, comprometem estradas, pontes, barragens e sistemas de irrigação construídos nas margens com a suposição de que o rio permaneceria, em linhas gerais, onde sempre esteve.

“Para os bilhões que dependem das fontes de água do Himalaia, a aceleração da dinâmica fluvial documentada em nosso estudo traz implicações para a segurança hídrica, os perigos relacionados a sedimentos e a estabilidade da infraestrutura ribeirinha”, disse Wang.

Boa parte da infraestrutura na região do Himalaia foi projetada para rios como eles eram quarenta anos atrás.

Os rios mudaram. Já os referenciais de planejamento - para controle de cheias, gestão da água e definição de onde é seguro construir - não acompanharam o mesmo ritmo.

Planejar para um alvo em movimento

Há um desafio mais profundo, que o estudo sugere sem resolver por completo: a dinâmica de rios é difícil de prever mesmo em condições estáveis.

Quando se somam degelo acelerado de geleiras, descongelamento do pergelissolo e aumento das temperaturas, a incerteza se multiplica.

Planejadores precisam decidir sobre obras que devem durar décadas em uma paisagem que está mudando mais rápido do que os modelos foram concebidos para representar.

O que pesquisas como esta oferecem é uma base empírica. É sobre esse alicerce que um planejamento melhor precisa ser construído.

Se governos e instituições responsáveis por administrar esses sistemas fluviais agirão com rapidez suficiente para aproveitar essa base é outra questão. Os rios não vão esperar a resposta.

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