Ninguém viaja para Whistler, no Canadá, pensando em mosquitos como portadores de vírus perigosos. O corredor Sea-to-Sky, ao norte de Vancouver, na Colúmbia Britânica, é procurado para esquiar, fazer trilhas e pedalar de mountain bike. Por ser uma área de altitude elevada e voltada ao lazer, não costuma parecer um lugar onde uma doença grave pudesse ter início.
Mas, no verão de 2024, um pequeno agrupamento de casos mudou essa perceção: algumas crianças adoeceram gravemente na região de Whistler. Na temporada seguinte, uma equipa de cientistas passou meses capturando mosquitos e analisando amostras - e encontrou algo que nunca havia sido registado ali.
Três crianças adoecem em Whistler
O problema começou em agosto de 2024, quando três crianças desenvolveram encefalite - um inchaço do cérebro. Exames ligaram os casos a um conjunto de vírus transmitidos por mosquitos, o que bastou para dar início a uma investigação completa.
Quem coordenou a resposta foi a Dra. Anya F. Smith, cientista sénior do B.C. Centre for Disease Control (BCCDC) e investigadora principal do projeto.
A equipa atuou em conjunto com zoologistas universitários, a autoridade regional de saúde e as nações Squamish Nation e Líl̓wat Nation, cujas lideranças ajudaram a definir os locais de busca.
O objetivo não era criar pânico. A intenção era entender quais espécies de mosquitos, de facto, vivem ao longo desse corredor e se alguma delas carrega vírus capazes de adoecer pessoas. Até então, essa “radiografia” da região simplesmente não existia.
Instalando armadilhas para mosquitos
Durante o verão de 2025, o grupo instalou armadilhas em 11 pontos entre Squamish e Pemberton, com Whistler no meio do trajeto. As saídas de campo envolviam transportar equipamento para áreas de mata e regressar depois para contabilizar tudo o que havia sido capturado.
No fim de agosto, o volume coletado chamou a atenção. Ao todo, foram 2,575 mosquitos, separados em 27 espécies diferentes no departamento de zoologia da University of British Columbia. Algumas eram espécies já conhecidas na área. Outras pareciam “fora do lugar”.
Para procurar vírus, o laboratório não analisou os insetos individualmente. Em vez disso, reuniu-os em 171 lotes, cada um composto por mosquitos da mesma espécie capturados no mesmo local e no mesmo período.
O que os testes revelaram
Esses lotes foram examinados à procura de duas ameaças: o conhecido vírus do Nilo Ocidental e um grupo menos popularmente citado, o vírus do sorogrupo Califórnia. O vírus do Nilo Ocidental não apareceu em nenhum lote. O outro, sim.
Dois lotes deram positivo para o vírus do sorogrupo Califórnia. Um deles era composto por mosquitos domésticos do norte e parentes próximos. Uma revisão da literatura científica destaca que vírus desse grupo têm sido encontrados em áreas da América do Norte mais amplas do que se supunha anteriormente.
As quantidades detectadas eram baixas - tão baixas que a equipa não conseguiu determinar com precisão qual estirpe havia sido capturada. Assim, a conclusão veio com uma ressalva clara: o vírus está presente em mosquitos locais, mesmo que os detalhes ainda não estejam totalmente definidos.
Vírus de mosquitos com nome e sobrenome
O vírus do sorogrupo Califórnia não é um único vírus, mas uma família com cerca de 18 vírus relacionados. A maioria das pessoas picadas e infetadas sequer percebe. Quando há sintomas, pode ser apenas uma febre leve e nada além disso.
Ainda assim, em situações raras, esses vírus podem atingir o cérebro e provocar inchaço cerebral ou inflamar o tecido ao redor.
No Canadá, dois deles são os mais frequentemente observados por médicos: o vírus Jamestown Canyon e o vírus snowshoe hare. Uma série recente de casos rastreou esse tipo de doença cerebral em várias províncias.
Antes, infeções assim eram vistas como extremamente raras. A melhoria dos testes laboratoriais mudou esse entendimento, ao revelar um vírus mais disseminado - e mais presente por trás de quadros de infeções cerebrais no verão sem causa aparente - do que os médicos costumavam considerar.
Recém-chegados no norte
Entre os mosquitos capturados, havia insetos que claramente haviam percorrido um longo caminho. Parte deles era de espécies invasoras, incluindo o mosquito doméstico do norte - uma espécie nativa da África, da Ásia e da Europa - que hoje já está estabelecida longe do seu habitat original.
O aumento das temperaturas pode explicar parte desse movimento. À medida que o clima aquece, áreas frias do norte que antes impediam a sobrevivência de mosquitos durante o inverno podem, gradualmente, tornar-se habitáveis.
Um estudo sobre a mudança de distribuição de mosquitos descreve exatamente esse avanço em direção ao norte.
O projeto Sea-to-Sky representou apenas um retrato de uma única temporada, e não uma série histórica longa. Mesmo assim, o padrão preocupa quem acompanha esses insetos.
“With climate change causing temperatures to rise, we may see an increase in our exposure to mosquitoes,” said Stefan Iwasawa, a mosquito specialist at the BCCDC.
Monitoramento de riscos ligados a mosquitos
Por enquanto, o risco para quem faz trilhas ou acampa ao longo do corredor continua baixo. A Colúmbia Britânica registou apenas cerca de 15 casos humanos conhecidos do vírus entre 2009 e 2024, e nenhum foi identificado na área Sea-to-Sky durante a temporada de 2025.
O que mudou foi o mapa do problema. Antes do estudo, ninguém havia confirmado que esses vírus circulavam em mosquitos locais ali, nem que espécies invasoras já tinham se estabelecido lado a lado com as nativas. Agora, as autoridades de saúde sabem as duas coisas - e também onde faz sentido continuar procurando.
Essa informação altera os próximos passos. Diante de uma febre de verão que começa a afetar o cérebro, um médico passa a ter mais uma causa possível para considerar.
Equipas de saúde pública, por sua vez, podem programar captura e testagem para os verões seguintes, em vez de correr para reagir depois. E pequenas rotinas também ajudam: eliminar água parada, usar repelente e vestir roupas que cubram a pele ao anoitecer.
Informações adaptadas de um comunicado do BCCDC.
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