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Estudo argentino liga glifosato à resistência bacteriana a antibióticos em hospitais

Cientista em laboratório observando placa de Petri com microrganismos coloridos perto de janela com vista para plantação.

O glifosato não é um antibiótico - ele foi criado para atingir plantas, não bactérias. Durante muito tempo, essa diferença serviu como uma espécie de garantia: herbicidas poderiam poluir o solo, mas não seriam parte do que alimenta a crise de infecções resistentes nas enfermarias.

Um estudo realizado na Argentina acabou colocando essa certeza em dúvida. Bactérias encontradas em uma reserva de área úmida que jamais recebeu pulverização apareceram mais “endurecidas” contra o herbicida. E o retrato delas lembrava um grupo bem conhecido pelos médicos: patógenos resistentes a medicamentos, comuns em unidades de terapia intensiva.

Bactérias ficam resistentes ao glifosato

O agente em foco é o glifosato, o ingrediente ativo do herbicida mais usado no planeta. Só a Argentina consome cerca de 36.000 toneladas por ano, quase tudo aplicado em lavouras de soja modificadas para tolerar o composto.

A equipe liderada por Daniela Centrón, Ph.D., microbiologista da Universidade de Buenos Aires (UBA), buscou entender se esse volume de herbicida estaria, de forma silenciosa, “treinando” bactérias do solo a sobreviver ao glifosato.

Além disso, ela quis saber se esse treinamento poderia trazer um efeito colateral que profissionais de saúde reconheceriam. A resposta foi positiva - de um jeito que aproxima fazendas e hospitais mais do que se imaginava.

Dentro da área úmida

Os pesquisadores reuniram 68 cepas bacterianas a partir de sedimentos de uma área úmida protegida ao norte de Buenos Aires, na região do delta do Paraná. No local, herbicidas nunca foram aplicados.

Ainda assim, as fazendas do entorno recebem pulverizações intensas durante a safra da soja. As bactérias retiradas do sedimento pertenciam a mais de uma dúzia de grupos diferentes. Nenhuma delas tinha sido exposta deliberadamente ao glifosato anteriormente.

Todas as cepas apresentaram ao menos algum nível de tolerância ao herbicida. Algumas cepas de Enterobacter - um grupo de bactérias frequente no solo, na água e também em infecções hospitalares - continuaram se multiplicando mesmo sob doses muitas vezes superiores ao que qualquer aplicação em campo entregaria.

Bactérias hospitalares testadas com glifosato

Em paralelo às amostras da área úmida, o time analisou bactérias isoladas de infecções em hospitais da região - cepas capazes de resistir a vários medicamentos ao mesmo tempo. Segundo um relatório, bactérias resistentes a antibióticos matam, globalmente, cerca de 1,1 a 1,4 milhão de pessoas por ano.

A maioria pertencia a espécies famosas nas UTIs, incluindo bactérias associadas a pneumonia resistente e a cepa de Staphylococcus conhecida como MRSA. Em seguida, cada cepa foi colocada à prova contra 16 antibióticos comuns.

As bactérias hospitalares resistiram a boa parte dos medicamentos testados. Quase três quartos mostraram resistência aos carbapenêmicos, antibióticos de amplo espectro guardados para situações em que as alternativas falham - a opção mais próxima, na prática clínica, de uma última linha.

Então veio o achado inesperado. Todas as cepas hospitalares também suportaram doses elevadas de glifosato - acima do que as culturas no campo de fato recebem.

Mesma família, casas diferentes

Ao montar uma árvore genealógica combinando as 102 cepas, os cientistas observaram um padrão nítido. As bactérias da área úmida com maior tolerância ao glifosato eram parentes próximas das bactérias resistentes a antibióticos isoladas em hospitais.

Elas vinham das mesmas famílias bacterianas e exibiam semelhanças na composição genética. O que mudava era o “endereço”. Cepas de Enterobacter apareceram entre as mais resistentes nos dois ambientes.

Esse agrupamento - microrganismos “duros” da área úmida ocupando os mesmos ramos que microrganismos “duros” do hospital - é o que torna a ligação mais do que uma coincidência.

Como as bactérias resistem ao glifosato

Pesquisas anteriores partiam do pressuposto de que as bactérias driblavam o glifosato principalmente ao alterar a enzima-alvo do herbicida. A leitura do material genético das cepas apontou para outro caminho.

O fator mais forte pareceu ser a presença de microbombas que expulsam toxinas para fora da célula bacteriana. Além disso, surgiu um conjunto de genes capaz de degradar o glifosato.

Essas mesmas bombas também servem para eliminar antibióticos - o que pode ajudar a explicar por que bactérias resistentes ao glifosato e bactérias resistentes a medicamentos acabam se parecendo tanto.

Outros trabalhos já mostraram que a exposição ao glifosato pode acelerar a troca de genes de resistência a antibióticos entre bactérias, ampliando ainda mais a disseminação.

Pela água

O glifosato é aplicado nas lavouras. Com a chuva, ele escoa e alcança córregos e rios. O esgoto hospitalar, muitas vezes mal tratado, também deságua nas mesmas vias. Esses fluxos se encontram em solos e lodos, onde as bactérias se misturam com liberdade.

“Bactérias que carregam genes de resistência a antibióticos podem se espalhar e se multiplicar entre esses dois nichos em ambas as direções e de múltiplas maneiras, com o ciclo da água desempenhando um papel-chave na transmissão”, disse Jochen A. Müller, Ph.D., líder de grupo no Karlsruhe Institute of Technology (KIT), na Alemanha, e coautor do trabalho.

Esse tráfego de mão dupla indica que o uso de herbicidas em regiões agrícolas pode aumentar a chance de infecções resistentes mais abaixo na bacia hidrográfica. E a água residual dos hospitais pode, por sua vez, levar às áreas rurais bactérias prontas para tolerar tanto medicamentos quanto herbicidas.

O que muda agora

Até este estudo, ninguém havia traçado uma ligação genética direta entre supermicrorganismos hospitalares específicos e a resistência a um químico agrícola determinado. O grupo argentino agora desenhou essa linha ao comparar o DNA dos dois conjuntos de bactérias.

Para órgãos reguladores, a implicação é prática: avaliar pesticidas antes da aprovação para verificar se eles estimulam resistência a antibióticos como efeito colateral e rotular produtos que possam carregar essa característica por solo e água.

Do lado hospitalar, o tratamento de esgoto passa a integrar o combate à resistência - e deixa de ser um tema secundário. Infecções resistentes há muito tempo são tratadas como um problema clínico. Este trabalho coloca parte dessa disputa, de forma clara, no caminho do escoamento e do lodo.

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