A hidroponia de circuito fechado virou a opção preferida para produzir alimentos em lugares onde não dá para desperdiçar água.
Em várias regiões secas, governos têm bancado a mudança, partindo da ideia de que a tecnologia “obviamente melhor” se paga sozinha por poupar recursos. A lógica parece fazer sentido, mas está certa só pela metade.
Um estudo recente acompanhou propriedades comerciais, com culturas reais, em diferentes pontos dos Emirados Árabes Unidos e mostrou que o sistema tido como superior não é melhor em todos os casos. Tudo depende do que está sendo cultivado.
Um quebra-cabeça da agricultura no deserto
Nos Emirados, o governo vem financiando a transição dos produtores. Foram oferecidos empréstimos sem juros de até cerca de US$ 300.000 por fazenda, além de capacitação e apoio para acesso a mercado.
A estratégia busca acelerar a troca de estufas mais antigas por sistemas hidropónicos, em que as plantas crescem em água com nutrientes, em vez de no solo.
O objetivo central é reduzir o consumo de água. Eihab Fathelrahman, da United Arab Emirates University (UAEU), liderou uma equipa que levantou dados de todas as propriedades incluídas nesse programa de conversão.
Ao todo, eram 35 fazendas, na região de Abu Dhabi. Parte delas operava com sistemas abertos, nos quais a solução nutritiva que sobra escoa e é descartada após uma única passagem.
Adoção de circuitos fechados
As demais utilizavam sistemas de circuito fechado, que recolhem o escoamento, fazem a limpeza e devolvem a solução às plantas.
A equipa não ficou apenas no consumo de água. Eles combinaram informações de custos, produtividade e o risco financeiro que cada agricultor assume.
Em seguida, submeteram os dados a um conjunto de modelos económicos para identificar qual configuração realmente compensa sob as condições duras do deserto. A resposta variou completamente conforme a cultura.
Duas culturas, dois resultados
Para pepinos, a recirculação levou vantagem. Fazendas de pepino em circuito fechado ficaram à frente em todos os níveis de cautela que um produtor poderia adotar ao decidir, oferecendo retornos superiores para o risco envolvido.
Isso é coerente com outros estudos que apontam a recirculação como adequada para culturas de trepadeiras com colheita rápida e alta demanda hídrica; num ensaio separado com pepino, reciclar a drenagem reduziu a água de irrigação em cerca de um terço.
Com tomates, o cenário se inverteu. Os sistemas abertos, frequentemente vistos como a alternativa mais desperdiçadora, apareceram como a aposta financeira mais segura para quem cultiva tomate.
A recirculação trouxe maior probabilidade de um ano ruim, e os resultados favoreceram a alternativa mais simples e mais barata ao longo de toda a análise.
Pepinos vs. tomates
De onde vem a diferença? O fator determinante está no comportamento das plantas. Pepinos absorvem água e nutrientes de forma mais constante, o que ajuda a manter a estabilidade química da solução reciclada.
Tomates, por outro lado, variam mais a absorção ao longo das fases de floração e frutificação. Com isso, sais e iões “perdidos” tendem a acumular-se na solução recirculada.
Esse desvio pode causar stress na planta e tornar a produção mais irregular, a menos que alguém monitore os reservatórios com grande atenção.
Reciclar realmente poupa recursos
As economias de recursos com circuitos fechados foram concretas e, em alguns casos, expressivas. Por planta, os sistemas com recirculação reduziram bastante o uso de fertilizantes: aproximadamente dois terços a menos para tomates e 40% a menos para pepinos.
Menos desperdício de nutrientes também significa menos escoamento poluído a infiltrar-se rumo ao lençol freático, um problema conhecido dos sistemas abertos já documentado em pesquisas anteriores.
O uso de água para arrefecimento também diminuiu, porque estufas quentes no Golfo consomem volumes enormes apenas para manter o ambiente suficientemente fresco para as culturas.
No indicador de água de irrigação por planta, os pepinos em circuito fechado chegaram a usar ligeiramente mais.
Para além da porteira
Num lugar em que a água frequentemente vem de dessalinização, um processo que exige muita energia, essas reduções têm impacto que vai além do limite da fazenda.
Houve um número que piorou. Pepinos em circuito fechado, na prática, consumiram um pouco mais de água de irrigação por planta - cerca de 6% a mais.
Os autores tratam isso como uma troca pequena, mas real, para quem planeia a mudança: um sistema de circuito fechado não garante automaticamente menos consumo de recursos em todos os aspetos.
A conta de energia que fica escondida
No deserto, poupar água é apenas metade da história. Sistemas de recirculação dependem mais de bombas, filtros e equipamentos de desinfeção, elevando a necessidade total de eletricidade.
Nos Emirados, grande parte da água vem de dessalinização intensiva em energia, o que torna os custos elétricos ainda mais relevantes.
Uma análise sobre agricultura com água do mar dessalinizada estimou que o custo energético pode ser várias vezes maior do que o de fontes convencionais de água doce.
Mas existe um detalhe decisivo. A eletricidade nos EAU é fortemente subsidiada; por isso, as fazendas de tomate em circuito fechado pareceram mais baratas nos cálculos, mesmo consumindo muito mais energia do que as fazendas em sistema aberto.
Se o subsídio for removido, a matemática pode virar contra a recirculação, especialmente para o tomate.
Esse ponto único muda a leitura dos resultados. Um circuito fechado que fecha a conta em Abu Dhabi pode dar prejuízo num país que cobre o preço cheio da energia. Em termos económicos, o desfecho depende tanto do custo local da eletricidade quanto do encanamento e da operação do sistema.
Como interpretar o risco
O que diferencia este trabalho é o foco em risco, e não apenas em médias. Muitos estudos anteriores mediram produtividade ou uso de água em parcelas experimentais controladas.
Poucos avaliaram o que acontece com o resultado financeiro de um produtor em funcionamento quando uma safra dá errado, usando dados de operações comerciais reais, e não de uma estufa de pesquisa.
Para comparar os sistemas de forma justa, a equipa calculou o que economistas chamam de equivalente de certeza: quanto lucro um produtor mais cauteloso exigiria para aceitar a alternativa mais arriscada.
Quando esse valor é mais baixo, significa que o agricultor precisa de uma margem de segurança maior para justificar assumir o risco adicional. Para tomates com recirculação, essa margem não compensou. Para pepinos, compensou.
Uma comparação simples de risco deixou a diferença evidente. Tomates em circuito fechado ficaram abaixo de limites aceitáveis de retorno em 38% das vezes.
Pepinos em circuito fechado, em contraste, apresentaram a melhor probabilidade de um retorno forte. A mesma tecnologia levou a conclusões opostas nas duas culturas.
O que os produtores podem fazer
A principal lição derruba uma suposição comum embutida em políticas agrícolas: a de que sistemas de recirculação são simplesmente a escolha superior e deveriam ser o padrão em qualquer lugar.
Não são. Tratar a recirculação como regra pode empurrar produtores de tomate para perdas, enquanto o orçamento aparenta estar a gerar progresso.
Para agricultores e para as agências que os financiam, a decisão mais prática é combinar o sistema com a cultura.
- Incentivar circuitos fechados para pepinos, com boa desinfeção e energia de backup.
- Manter produtores de tomate em sistemas abertos, ao mesmo tempo implementando captura do escoamento e fertirrigação de precisão para reduzir o desperdício.
Caminhos futuros para as culturas
Fathelrahman e colegas defendem que essa lógica, cultura por cultura, deve orientar para onde vai o dinheiro dos subsídios.
Fora dos Emirados, outras regiões áridas que estejam a montar programas semelhantes podem aplicar o mesmo teste de risco e recursos antes de se comprometerem, e depois ajustar as conclusões aos seus próprios preços de energia e ao seu clima.
A abordagem geral continua válida mesmo quando os números específicos mudam. Uma decisão que parece óbvia à distância - como esta parecia - tende a revelar-se muito mais específica quando observada de perto.
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