Sicília: do cinema ao desejo de voltar
O diretor e ator Alberto Sordi dizia que, se Deus criou a Sicília antes, foi para ver como ela ficava antes de fazer o restante do mundo. Sordi nunca chegou a filmar na ilha, mas Giuseppe Tornatore, sim, quando escreveu e dirigiu uma das grandes obras-primas da Sétima Arte, "Cinema Paraíso", em 1988. Em parte por causa da trajetória do pequeno Salvatore - que sai da ilha para conquistar o mundo - eu alimentava há décadas o sonho de conhecer esse lugar. Fui, percorri um pedaço da ilha e voltei com a certeza guardada no peito de que ainda retornarei.
A Sicília é o berço do Mediterrâneo: um território encantado que, nos últimos três mil anos, esteve no centro do mundo - e, por isso mesmo, foi cobiçado e disputado por todos. Por ali passaram fenícios, gregos, romanos, vândalos, bizantinos, árabes, normandos, suevos, franceses e espanhóis; cada povo deixou sua marca sem apagar as anteriores.
Os gregos ergueram Siracusa e Agrigento e transformaram a ilha no coração da Magna Grécia. Foi em Siracusa que nasceu Arquimedes, o matemático e engenheiro que mediu a terra, a água e o céu, e que defendeu a cidade contra Roma com engenhos de guerra. A lenda conta que ele desenhava círculos na areia quando um soldado o matou. De Arquimedes, guardo uma frase que virou um dos meus lemas de vida: "Dai-me um ponto de apoio e eu levantarei o Mundo".
Três mil anos de camadas históricas no coração do Mediterrâneo
Sob domínio romano, a ilha virou o celeiro do império. Em seguida chegaram os bizantinos e os árabes, que trouxeram a irrigação, a laranja, o jasmim e o açúcar, além de fazerem de Palermo uma das cidades mais ricas do Mediterrâneo. A língua, a arquitetura e a cozinha ficaram marcadas para sempre.
No século XIII, Frederico II da Suábia (antigo reino na região da Alemanha) fez de Palermo um polo de cultura e ciência. Frederico podia ostentar quatro coroas: rei da Sicília, rei da Alemanha, rei de Jerusalém e imperador do Sacro Império. Criado em Palermo, falava nove idiomas, conseguia escrever em sete e colocou a Sicília no centro do seu império.
Ele fundou a Universidade de Nápoles, concentrou o poder do Estado e amparou poetas e artistas. Na sua corte, cristãos, árabes e judeus conviviam em paz; foi durante o seu reinado que a ilha se consolidou como ponte entre Oriente e Ocidente.
Em 1282, a revolta das Vésperas Sicilianas separou o poder da ilha do continente: de um lado ficou o Reino de Nápoles; do outro, o Reino da Sicília.
Na ocupação espanhola, surgiu um dos símbolos mais icônicos da Sicília, as cabeças de mouros. Diz a lenda que uma jovem siciliana se apaixonou perdidamente por um sarraceno. Ao descobrir que o amado tinha uma legítima - com filhos - no Norte da África, ela lhe cortou a cabeça, colocou-a num vaso de manjericão e chorou até que o vaso florescesse.
Quando, em 1816, Fernando IV de Bourbon voltou a reunir as coroas, preservou os dois títulos. Assim nasceu o Reino das Duas Sicílias, com capital em Nápoles, mas com metade da alma fincada na ilha.
O século XIX trouxe a unificação da Itália. Giuseppe Tomasi di Lampedusa, último príncipe de Lampedusa - também chamado Il Gattopardo por causa do leopardo no brasão da família Tomasi - escreveu um único romance que o lançou ao estrelato literário, no qual retratou com talento e sensibilidade a decadência da aristocracia siciliana. É dele a frase famosa: "Se queremos que tudo fique como está, é preciso que tudo mude", resumindo a alma siciliana, que resiste à mudança fingindo aceitá-la. Uma madorna lânguida atravessa a ilha e o seu povo. É o dolce far niente que aquieta os sentidos e nos ensina a provar o presente.
Paixões, máfia e coragem na Sicília contemporânea
A história da Sicília está impregnada de grandes paixões e de sangue correndo por vielas estreitas e misteriosas. Por décadas, a máfia siciliana, a Cosa Nostra, controlou o território das Duas Sicílias. Dois juízes de Palermo, Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, encararam o monstro mais feroz. Falcone dizia que a máfia era um fenômeno humano e, como tal, teve um começo e teria também um fim.
Os dois foram assassinados em 1992: Falcone, em Capaci, com a esposa, Francesca; e Borsellino, 57 dias depois. Ainda assim, conseguiram curvar a intrincada estrutura de famílias, de Capi e de Consiglieri. Hoje, o aeroporto de Palermo leva o nome dos dois.
A Sicília é isso: uma ilha invadida mil vezes, que transformou cada invasor em siciliano. Ela nos deu a física de Arquimedes, a lucidez melancólica do Gattopardo, a poesia de "Cinema Paraíso" e a coragem de Falcone.
Singular, única e apaixonante, é o coração do Mediterrâneo.
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