Um estudo recém-publicado constatou que ondas de calor longas e extremas levam mais pessoas ao hospital por emergências de saúde mental, com um risco que vai se acumulando nos dias seguintes ao início do calor intenso. Esse padrão apareceu ao analisar mais de 2,6 milhões de internações em quatro países, distribuídos por três continentes.
Os resultados associam uma sequência de dias escaldantes a um aumento nas admissões por depressão, ansiedade e outros transtornos mentais e comportamentais. Idosos e moradores de regiões pouco povoadas foram os mais afetados - muitas vezes em locais onde a ajuda fica mais distante.
Calor e saúde mental
Há anos, cientistas suspeitavam de uma ligação entre calor e saúde mental, mas grande parte das evidências vinha de análises restritas a uma cidade específica ou a um único país por vez. Pesquisas anteriores no Vietname já haviam relacionado ondas de calor a mais internações psiquiátricas, porém dentro de um contexto nacional.
Agora, pela primeira vez, essa relação foi testada simultaneamente em quatro países. O estudo reuniu realidades climáticas tão distintas quanto os trópicos do Brasil e o sul temperado da Nova Zelândia, com base em registos hospitalares coletados entre 2000 e 2019.
A investigação foi liderada por Yuming Guo, professor de saúde ambiental e bioestatística na Universidade Monash, em Melbourne, Austrália.
Em um e-mail ao Earth.com, Guo afirmou: “While heat-related cardiovascular and respiratory problems have received considerable attention, the impacts on mental health have historically been overlooked.”
A equipa de Guo examinou mais de 2,6 milhões de internações em períodos quentes, provenientes de 852 localidades. Em seguida, mediu com que frequência essas admissões aumentavam durante ondas de calor - definidas como intervalos de pelo menos quatro dias em que as temperaturas locais atingiam os valores mais altos de poucos por cento.
Para reduzir a influência de outras explicações, cada paciente foi, na prática, comparado consigo mesmo em dias mais frescos dentro do mesmo mês.
O impacto, em um único dia, foi relativamente pequeno, mas se intensificou com o passar do tempo. No dia em que o calor extremo se instalou, as internações por crises de saúde mental subiram cerca de 3 percent. Considerando esse dia e os oito seguintes, o aumento aproximou-se de 6 percent.
Grupos com maior risco
As médias escondiam um cenário mais severo para alguns segmentos. Entre pessoas com mais de 65 anos, o crescimento das admissões durante ondas de calor foi mais acentuado do que no conjunto da população. Idosos regulam a temperatura corporal com menos eficiência e muitos usam medicamentos que reduzem a capacidade do organismo de arrefecer.
O risco também foi mais elevado em áreas pouco povoadas do que entre habitantes de grandes centros. O achado surpreendeu os pesquisadores, já que moradores de zonas rurais costumam estar menos expostos ao calor retido nas cidades densas, que mantém as noites abafadas.
Questionado pelo Earth.com sobre o motivo de o risco aumentar em regiões de baixa densidade populacional, Guo respondeu: “People living in low-population-density areas may have reduced access to mental health services and emergency care, making them more vulnerable when heatwaves exacerbate existing mental health conditions.” Segundo a análise, serviços mais escassos, deslocamentos mais longos até atendimento e maior isolamento podem contribuir.
O padrão por idade contrasta com alguns resultados anteriores. Um estudo sobre atendimentos de emergência observou crianças e jovens adultos mais sensíveis a oscilações de temperatura; aqui, porém, os pacientes mais velhos exibiram a resposta mais nítida. As duas conclusões podem coexistir, porque o calor atinge diferentes pessoas por vias distintas.
Como o calor sobrecarrega a mente
O estudo contabilizou internações, e não os processos biológicos por trás delas, de modo que o mecanismo permanece, em parte, inferido. Um dos caminhos mais prováveis passa pelo sono: o calor dificulta adormecer e manter o sono, e a privação ou fragmentação do descanso é um dos gatilhos mais consistentes para episódios de depressão, ansiedade e transtorno bipolar.
O calor prolongado vai além de tirar o repouso. Ele eleva hormonas do stress, desestabiliza a temperatura central do corpo e desgasta a paciência e o julgamento que ajudam a manter sintomas sob controlo.
Para quem já vive no limite, uma semana de calor incessante pode ser o empurrão que culmina em uma internação.
Esse desgaste gradual combina com o que os dados indicaram. As internações adicionais não explodiram e desapareceram rapidamente; elas continuaram a aumentar durante dias após a primeira noite muito quente - algo esperado se o efeito se acumula, em vez de ocorrer de uma só vez.
Preparação para verões mais quentes
O fator tempo dá ao achado relevância para além do atendimento clínico. As alterações climáticas estão a tornar as ondas de calor mais longas, mais intensas e mais frequentes, e o calor já figura entre os fenómenos meteorológicos mais letais registados. Um estudo estimou o total anual global de mortes por ondas de calor em mais de 150,000.
Para hospitais, a implicação é direta. Ondas de calor já empurram pessoas para as emergências por insolação e desidratação, e esta pesquisa acrescenta um aumento menos visível: a procura por cuidados psiquiátricos, algo que o planeamento raramente antecipa.
Em conversa com o Earth.com, Guo disse: “Our evidence shows that extreme heat can worsen existing mental health conditions, increase psychological distress, and contribute to higher risks of hospitalisation.”
Com esses dados, torna-se difícil ignorar o fenómeno. O que antes aparecia como uma suspeita dispersa surge agora como um padrão mensurável, sustentado por quatro países e duas décadas de registos.
Cidades e sistemas de saúde que se organizam para enfrentar o calor podem também preparar-se para o seu impacto na mente, reforçando equipas de psiquiatria e serviços de crise antes do próximo período prolongado de temperaturas extremas - e não apenas quando ele já estiver em curso.
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