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Rinoceronte ártico *Epiaceratherium itjilik* encontrado na Ilha de Devon há 23 milhões de anos

Jovem escava e examina crânio de animal em terreno rochoso com ferramentas e caderno de desenho.

Nas profundezas do solo congelado da Ilha de Devon, no Alto Ártico canadense, cientistas localizaram o esqueleto quase completo de um rinoceronte, Epiaceratherium itjilik, que viveu ali há cerca de 23 milhões de anos.

A descoberta, feita por uma equipa do Museu Canadense da Natureza, indica que rinocerontes já circularam muito mais ao norte do que se imaginava.

Fósseis de Epiaceratherium itjilik

Os fósseis surgiram dentro da Cratera de Haughton, uma estrutura de impacto com 23 quilômetros de diâmetro que hoje está presa ao gelo e ao silêncio. Há milhões de anos, porém, o cenário era bem diferente: o mesmo local abrigava florestas, lagos e uma diversidade de vida.

A equipa batizou a espécie recém-descrita de Epiaceratherium itjilik - o “rinoceronte gelado” - numa combinação de latim com inuktitut, para marcar a ligação com o seu ambiente ártico.

“Hoje existem apenas cinco espécies de rinocerontes na África e na Ásia, mas no passado eles eram encontrados na Europa e na América do Norte, com mais de 50 espécies conhecidas no registo fóssil”, disse a Dra. Danielle Fraser, chefe de paleobiologia no Museu Canadense da Natureza.

“A adição desta espécie ártica à árvore genealógica dos rinocerontes agora oferece novos insights para a nossa compreensão da sua história evolutiva.”

Como os rinocerontes se adaptaram ao Ártico

Os ossos desse animal apontam para uma trajetória de adaptação e sobrevivência. O Epiaceratherium itjilik era mais pequeno e mais esguio do que os rinocerontes africanos atuais. Não tinha chifre e, no porte, lembrava o rinoceronte-indiano.

O termo “itjilik”, que significa “geada” em inuktitut, foi escolhido após consulta ao ancião inuit Jarloo Kiguktak, de Grise Fiord - a comunidade inuit mais ao norte do Canadá. Ele visitou o local dos fósseis e ajudou a orientar o processo de nomeação, como forma de respeitar a herança cultural da região.

A primeira recolha remonta a 1986, quando a Dra. Mary Dawson, do Museu Carnegie de História Natural, reuniu alguns ossos essenciais. Entre eles havia partes do crânio, maxilares e dentes - material suficiente para confirmar que se tratava de um membro da família dos rinocerontes.

Dawson, que morreu em 2020, esteve entre as primeiras pessoas a explorar fósseis no Ártico e é creditada como coautora do estudo que, por fim, atribuiu um nome formal à espécie.

Ossos de Epiaceratherium itjilik

O estado de conservação surpreendeu a equipa. “O que é notável no rinoceronte ártico é que os ossos fósseis estão em excelente condição”, afirmou Marisa Gilbert, assistente sénior de pesquisa no Museu Canadense da Natureza.

“Eles estão preservados em três dimensões e foram apenas parcialmente substituídos por minerais. Cerca de 75% do esqueleto foi encontrado, o que é incrivelmente completo para um fóssil.”

Gilbert participou de várias expedições ao Ártico lideradas pela Dra. Natalia Rybczynski no fim dos anos 2000. Nessas viagens, a equipa também revelou outra espécie antiga, Puijila darwini, um ancestral de foca em transição do ambiente terrestre para o mar.

Com Epiaceratherium itjilik, o trabalho passa a ligar duas narrativas evolutivas distintas - uma sobre a vida a ajustar-se a condições geladas e outra sobre mamíferos a expandirem-se por diferentes continentes.

Como os rinocerontes chegaram ao Ártico

O ponto onde o fóssil foi encontrado adicionou uma reviravolta à história do grupo. Ao analisar 57 espécies de rinocerontes, extintas e atuais, os cientistas concluíram que Epiaceratherium itjilik provavelmente migrou da Europa para a América do Norte através de uma ponte terrestre que passava pela Groenlândia.

Pesquisas anteriores defendiam que essa rota teria desaparecido há 56 milhões de anos, mas a nova evidência sugere que a passagem se manteve por muito mais tempo - possivelmente até o Mioceno.

A equipa da Dra. Fraser recorreu à modelagem para reconstruir onde e quando as espécies de rinocerontes surgiram. A análise indicou que a Ponte Terrestre do Atlântico Norte ainda estava ativa no período em que Epiaceratherium itjilik viveu.

O resultado altera uma parte da história da migração de mamíferos e aponta para uma onda de deslocamento entre continentes bem mais tardia do que se esperava.

Pistas de proteínas no esmalte

Em 2025, outro avanço ampliou ainda mais essa narrativa. Pesquisadores conseguiram extrair proteínas parciais do esmalte dentário do rinoceronte - um feito que, para fósseis tão antigos, era considerado impraticável.

O trabalho, liderado pelo pós-doutorando Ryan Sinclair Paterson, da Universidade de Copenhague, estendeu em milhões de anos o intervalo de tempo em que proteínas evolutivas recuperáveis podem ser obtidas.

A pesquisa também abriu uma nova possibilidade para estudar mamíferos antigos por meio de biomoléculas preservadas.

“É sempre empolgante e informativo descrever uma nova espécie”, disse a Dra. Fraser.

“Mas há mais que vem da identificação de Epiaceratherium itjilik, pois as nossas reconstruções da evolução dos rinocerontes mostram que o Atlântico Norte teve um papel muito mais importante na sua evolução do que se pensava anteriormente.”

O antigo ambiente do Ártico

No passado, a Cratera de Haughton abrigava lagos cercados por florestas temperadas. Plantas fossilizadas indicam que bétulas e lariços cresciam onde hoje o gelo domina.

Com o passar do tempo, ciclos de congelamento e degelo fraturaram camadas enterradas e empurraram ossos antigos para mais perto da superfície.

Esse mecanismo, chamado de crioturbação, ajudou a manter fósseis como Epiaceratherium itjilik preservados num setor pequeno, com cerca de 7 metros quadrados.

Embora o Ártico atual pareça inóspito, ele continua a expor sinais de um passado mais verde. Cada achado acrescenta uma nova linha à história da Terra - uma história escrita em osso e gelo.

Importância de Epiaceratherium itjilik

O achado vai além de preencher uma lacuna no registo fóssil. Ele mostra que o Ártico, muitas vezes visto como desprovido de vida, guarda relatos de resistência e adaptação.

Há milhões de anos, um rinoceronte sem chifre caminhava por florestas que já não existem. Os seus ossos, agora libertos do gelo, contam uma história de sobrevivência em mundos em transformação - e lembram que até os lugares mais frios podem conservar as histórias mais cálidas.

O fóssil de Epiaceratherium itjilik está hoje no Museu Canadense da Natureza (preparado em colaboração com o Museu Carnegie de História Natural).

Crédito da imagem em destaque: Julius Csotonyi

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