Como um beija-flor tão pequeno consegue passar o dia inteiro bebendo néctar açucarado e, ainda assim, manter-se perfeitamente saudável? Em humanos, o consumo excessivo de açúcar costuma estar ligado à obesidade, ao diabetes e a problemas cardíacos.
Mesmo assim, algumas aves vivem quase só de néctar rico em açúcar ou de frutos muito doces sem desenvolver essas doenças.
Esse enigma intriga cientistas há anos. Um estudo recente do Instituto Max Planck de Inteligência Biológica agora mostra, de forma impressionante, como a natureza contornou esse desafio.
Aves que sobrevivem com açúcar
Muitas espécies de aves evitam alimentos muito açucarados. Ainda assim, beija-flores, pássaros-sóis, melífagos e alguns papagaios obtêm do néctar ou de frutos a maior parte da energia de que precisam.
Um beija-flor paira diante de uma flor e enfia o bico bem fundo para sugar o néctar. Já um melífago recolhe o líquido doce das flores de eucalipto usando uma língua com ponta em formato de escova.
Na prática, essas aves ingerem grandes quantidades de açúcar todos os dias. Em humanos e em muitos outros animais, uma dieta assim rapidamente prejudicaria órgãos e desorganizaria o equilíbrio do corpo. Essas espécies, porém, conseguem escapar desse risco.
Dieta açucarada evoluiu no mundo todo
Aves que se alimentam de açúcar vivem em diferentes continentes. Os beija-flores são das Américas. Os pássaros-sóis vivem na África e na Ásia. Os melífagos são comuns na Austrália.
Cada uma dessas linhagens surgiu de forma independente, há milhões de anos. Por isso, pesquisadores se perguntavam se todos esses grupos teriam desenvolvido as mesmas alterações genéticas para lidar com tanto açúcar - ou se cada um teria encontrado um caminho próprio.
Para investigar, os cientistas compararam o DNA completo de aves que consomem muito açúcar com o DNA de parentes próximos que não dependem do néctar.
O açúcar sobrecarrega o corpo das aves
Viver de néctar impõe obstáculos importantes. Além de concentrar muito açúcar, o néctar também traz grandes volumes de água, e o organismo precisa dar conta de processar ambos com rapidez e segurança.
“Uma dieta rica em néctar ou em frutos doces apresenta desafios fisiológicos únicos”, disse Ekaterina Osipova, pós-doutoranda do Museu de História Natural de Frankfurt e co-primeira autora do estudo.
“Essas aves precisam processar quantidades enormes de açúcar sem sobrecarregar seus sistemas e devem lidar com volumes gigantescos de líquido mantendo a pressão arterial e o equilíbrio de sais adequados.”
“Os padrões genéticos que encontramos começam a revelar um panorama maior de como essas aves conseguem ingerir quantidades imensas de açúcar de formas que nós não conseguimos e ajudam a responder perguntas fundamentais sobre a repetibilidade na evolução.”
Para que tudo isso funcione, coração, rins e vasos sanguíneos precisam atuar em conjunto para manter o corpo em equilíbrio.
Padrões compartilhados nos genes
A equipe analisou milhares de genes de aves das Américas, da África, da Ásia e da Austrália.
Algumas mudanças genéticas apareceram apenas em um dos grupos. Outras, porém, surgiram em dois ou mais grupos, mesmo quando essas linhagens evoluíram muito distantes entre si.
Os pesquisadores identificaram alterações relevantes em genes ligados ao controle da pressão arterial e ao balanço de água. Outras mudanças influenciavam o ritmo cardíaco e o transporte de íons nos rins.
Em conjunto, esses ajustes favorecem a eliminação do excesso de água sem perder os níveis corretos de sais na corrente sanguínea.
Um gene mestre para o açúcar
Entre todos os genes avaliados, um se destacou de maneira evidente: o MLXIPL. Ele tem papel central em regular como as células processam açúcar e o transformam em energia.
Os quatro grupos de aves que se alimentam de açúcar apresentaram mudanças nesse gene. Já parentes próximos que não consomem tanto açúcar não exibiram essas alterações.
Testes em laboratório mostraram que a versão do MLXIPL nos beija-flores é muito mais ativa do que a encontrada em andorinhões, que são parentes próximos, mas não dependem do néctar.
Sobrevivendo a uma ingestão extrema de açúcar
O fato de mudanças no MLXIPL terem surgido repetidamente em diferentes grupos indica que esse gene é crucial para tolerar uma ingestão extrema de açúcar.
Apesar de terem evoluído em continentes distintos ao longo de milhões de anos, a evolução ajustou o mesmo gene diversas vezes. Esse padrão sugere que, diante de problemas semelhantes, a natureza por vezes chega a soluções parecidas.
Quando a sobrevivência depende de processar açúcar com eficiência, o MLXIPL vira uma ferramenta-chave. Essas repetições também ajudam cientistas a entender o quanto a evolução pode ser previsível.
O que isso significa para os humanos
A descoberta chama ainda mais atenção porque o MLXIPL também é importante no metabolismo humano.
“O que acho particularmente empolgante é que nossos achados abrem novas questões sobre metabolismo, fisiologia e como outros animais lidam com dietas extremas”, observou Meng-Ching Ko, pós-doutorando do Instituto Max Planck de Inteligência Biológica e co-primeiro autor.
“Nossos ancestrais evoluíram com dietas pobres em açúcar, mas muitos de nós hoje consumimos muito mais açúcar do que o corpo consegue suportar. Entender como essas aves se adaptaram pode, no fim, ajudar a identificar novos alvos terapêuticos para o diabetes e outras doenças metabólicas.”
As dietas modernas, com frequência, trazem muito mais açúcar do que o organismo humano evoluiu para administrar com segurança.
As soluções inteligentes da evolução
O estudo ilustra como a evolução pode gerar respostas semelhantes em espécies diferentes. Algumas mudanças genéticas foram exclusivas, enquanto outras se repetiram ao longo de continentes e de milhões de anos.
Por seleção natural, aves que se alimentam de açúcar transformaram uma dieta arriscada em uma fonte potente de energia. Cada gole de néctar parece simples, mas reflete alterações genéticas profundas que protegem o corpo.
Essas aves diminutas, hoje, oferecem pistas valiosas sobre metabolismo, saúde e o poder oculto dos genes.
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