A sensação de estar seguro dentro de casa moldou grande parte da reação das pessoas à COVID-19. A lógica parecia simples: fechar a porta, evitar aglomerações e, assim, reduzir o risco.
Só que um surto incomum na Espanha colocou essa certeza em xeque e obrigou cientistas a investigar algo que quase ninguém leva em conta: o ar que circula por dentro das paredes.
No verão de 2020, a cidade de Santander praticamente tinha eliminado os casos de COVID-19. A rotina começava a voltar ao normal.
De repente, em um prédio residencial de sete andares, surgiram infecções de forma abrupta. Em poucos dias, quinze moradores de quatro apartamentos testaram positivo.
À primeira vista, o arranjo parecia não fazer sentido. As unidades afetadas não eram vizinhas lado a lado: estavam alinhadas uma sobre a outra. Cada apartamento com caso confirmado ficava exatamente acima ou abaixo de outro.
Esse desenho vertical sugeria um elo oculto. A ligação não era social - era estrutural.
Um padrão preciso de casos de COVID-19
O engenheiro e morador David Higuera percebeu cedo a regularidade. Ele e a esposa receberam resultado positivo.
Pouco depois, vizinhos posicionados na mesma “coluna” de apartamentos também passaram a aparecer como infectados. Os casos se repetiam acima e abaixo, como se seguissem um trilho.
“Eu sabia que, se o que minha esposa e eu suspeitávamos estivesse acontecendo, isso poderia ter implicações científicas significativas para a saúde pública”, afirmou Higuera.
Não se tratava de um espalhamento aleatório. O caminho lembrava mais um trajeto de fluxo de ar do que de contato entre pessoas.
Um vírus novo em um projeto antigo
O edifício era de 1969, construído antes dos padrões modernos de ventilação na Espanha. Em cada apartamento, havia uma pequena saída de ar no banheiro ligada a um duto vertical compartilhado.
Esse duto ia do piso inferior até o telhado e funcionava pela ventilação natural: como o ar quente sobe, a ideia era que o ar se deslocasse para cima e saísse do prédio.
O sistema parecia direto e funcional. Porém, na prática, criava uma passagem de ar comum entre moradias.
Além disso, o fluxo de ar dentro de prédios não é estável. Ele varia com temperatura, clima e atividades do dia a dia. Abrir uma janela ou ligar um ventilador, por exemplo, muda a pressão do ambiente.
Quando a pressão cai, o sentido do ar pode inverter. Em vez de sair, o ar entra.
Nesse prédio, isso significava que o ar de um apartamento poderia chegar a outro por meio da saída do banheiro.
Pistas em um apartamento vazio
Para entender o que acontecia, pesquisadores analisaram o fluxo de ar minuciosamente. Eles acompanharam pressão, velocidade do ar e níveis de dióxido de carbono. O dióxido de carbono funciona como marcador de respiração humana.
Em um dos testes, a equipe avaliou um apartamento vazio. A expectativa era encontrar quase nenhum dióxido de carbono. Mesmo assim, os níveis aumentaram ao longo do dia.
“Era como se houvesse um fantasma no quarto”, disse Higuera.
O ar não estava vindo de fora: estava chegando de outros apartamentos.
O vírus se espalhou pelos dutos
Em determinadas condições, a inversão do fluxo foi intensa. Quando um exaustor de cozinha operava na potência máxima, o ar passava a entrar pela saída do banheiro em vez de sair por ela.
Esse fluxo reverso alcançou cerca de 42 litros por segundo. Junto com o ar, vinham partículas de outras unidades - incluindo aerossóis capazes de carregar o vírus.
Como o projeto permitia circulação nos dois sentidos, a infecção podia viajar verticalmente.
Para confirmar as observações, os pesquisadores recorreram a modelos computacionais. Um deles reproduziu o fluxo entre dois banheiros empilhados; outro representou o prédio inteiro.
Os resultados bateram com as medições reais. O ar de um apartamento inferior conseguia subir pelo duto e entrar em uma unidade acima - e o mesmo mecanismo também podia ocorrer no sentido oposto.
A equipe ainda aplicou modelos de infecção para estimar o risco. Em diferentes cenários, a probabilidade de contágio subiu além de limites considerados seguros.
O papel dos exaustores de cozinha
Um achado inesperado envolveu os exaustores de cozinha. Esses aparelhos removem ar do interior, mas também geram pressão negativa.
Quando alguém ligava a coifa, o equipamento “puxava” ar do duto compartilhado. Se esse ar estivesse carregando partículas virais, ele entrava no apartamento.
Exaustores de banheiro podiam produzir um efeito parecido, empurrando ar potencialmente contaminado para outros andares.
Assim, ações comuns - como cozinhar ou ventilar o banheiro - podiam, sem intenção, contribuir para a transmissão.
Apartamentos que ficaram protegidos
Nem todas as unidades do prédio registraram casos. Esses apartamentos usavam o mesmo duto de ventilação, mas tinham pequenas alterações.
Três apartamentos contavam com exaustores equipados com válvulas de retenção (abas de sentido único). Elas deixam o ar sair, mas impedem sua entrada.
Outro apartamento havia vedado completamente a saída. Nenhuma dessas moradias teve casos de COVID-19.
Esse contraste reforçou com força a hipótese de que o fluxo de ar esteve por trás do surto.
Prova genética da transmissão
Os cientistas também examinaram o próprio vírus. As amostras coletadas de moradores infectados apresentaram padrões genéticos quase idênticos.
Ao mesmo tempo, elas diferiam de outros casos registrados na cidade naquele período. Isso confirmou que a transmissão ocorreu dentro do prédio, e não por fontes externas.
O surto seguiu uma única cadeia de transmissão entre apartamentos conectados.
Implicações mais amplas do estudo
O episódio não é um caso isolado. Situações semelhantes já haviam aparecido em surtos anteriores.
Em 2003, a SARS se espalhou em um conjunto habitacional em Hong Kong. Durante a COVID-19, a transmissão vertical voltou a ser observada em Seul e em outras cidades.
Muitos edifícios mais antigos ainda utilizam dutos de ventilação compartilhados. Esses sistemas foram pensados para eficiência, não para controle de infecções.
“Embora este seja um projeto de edifício especial mais comum na Espanha, ele ilustra uma preocupação mais ampla: mesmo que você esteja longe da fonte, se o seu ar estiver conectado, você ainda pode adoecer”, afirmou Shelly Miller, primeira autora do estudo e pesquisadora da University of Colorado Boulder.
“Isso pode acontecer em um prédio multifamiliar por meio dos dutos, em um hotel entre o corredor e os quartos que dão para esse corredor, em edifícios de escritórios entre salas ou em um navio de cruzeiro.”
Uma correção de engenharia simples
A solução pode ser mais simples do que parece. A instalação de um pequeno exaustor com válvula de sentido único impede o fluxo reverso.
Com o ventilador desligado, a aba bloqueia a entrada de ar. Quando o equipamento funciona, ele expulsa o ar com segurança.
Outra medida é permitir a entrada de ar externo ao usar exaustores de cozinha. Abrir uma janela ajuda a equilibrar a pressão e diminui a chance de puxar ar de outros apartamentos.
Repensando a segurança dentro de edifícios
Esse surto altera a forma de encarar a segurança em ambientes internos. Paredes e portas nem sempre isolam o ar. Rotas escondidas podem interligar espaços de maneiras inesperadas.
Vistorias prediais precisam olhar com mais atenção para sistemas de circulação de ar. Dutos compartilhados, tubulações e cavidades podem funcionar como canais para partículas suspensas no ar.
Em Santander, um duto de ventilação aparentemente simples virou a ponte entre domicílios. O caso mostrou que a infecção pode se deslocar por dentro de um prédio de formas que raramente entram no radar das pessoas.
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