A cortiça é inconfundível - compacta, levemente esponjosa e impermeável. A mesma substância que dá essas características à cortiça também atua, discretamente, no interior das raízes das plantas.
O quanto dessa substância a planta deposita - e em que pontos da raiz - varia de forma surpreendente.
Um grupo de pesquisa na Suíça agora rastreou essa variação até um único gene que ainda não havia sido identificado.
Uma barreira semelhante à cortiça
As raízes são a interface entre a planta e o solo. Para regular o que entra e evitar que a água escape, as plantas revestem uma camada profunda de células da raiz com suberina, uma substância cerosa.
Quando se usa um corante fluorescente, a suberina aparece como uma “manga” amarelo-clara envolvendo a parte interna da raiz, logo do lado de fora dos vasos que levam água para cima.
Até aqui, quase tudo o que os cientistas entendiam sobre como essa camada se forma vinha de uma única linhagem cultivada em laboratório, de uma única espécie, mantida em estufas para estudos de genética.
Já o papel da suberina em condições naturais sempre foi uma questão diferente.
Plantas de muitos climas
A pesquisa foi liderada por Marie Barberon, professora associada de ciências das plantas na Universidade de Genebra (UNIGE), em colaboração com equipes da Universidade de Lausanne (UNIL).
Trabalhando com 284 variedades naturais de Arabidopsis thaliana - uma pequena planta com flor, muito usada como modelo em genética vegetal - o grupo corou as raízes de cada planta e analisou os padrões em detalhe.
Os resultados chamaram atenção. Em algumas linhagens, a suberina formava mangas espessas e contínuas já perto da ponta da raiz.
Em outras, a barreira era irregular, com falhas, ou surgia mais abaixo, em direção às partes mais velhas da raiz.
Um padrão climático nítido
Essas variedades vinham de locais muito distintos, de encostas quentes do Mediterrâneo a campos frios da Escandinávia.
Os pesquisadores compararam os padrões de suberina com o clima de origem de cada variedade. Um sinal claro apareceu.
Plantas de regiões com chuva imprevisível, condições mais secas e temperaturas mais altas eram as que depositavam mais suberina - mais espessa exatamente onde a planta mais precisava reter água.
“Os nossos resultados sugerem que fortalecer a barreira é uma adaptação natural ao estresse hídrico, permitindo maior controle da troca de água com o solo”, disse Jian-Pu Han, primeiro autor do estudo.
Identificando o mecanismo genético
Uma varredura genômica nas 284 variedades levou a um gene pequeno e até então desconhecido, que a equipe chamou de GENE DA SUBERINA 1, ou SBG1.
Esse gene codifica uma proteína minúscula - com apenas 129 unidades básicas, bem menor do que a maioria.
As variedades que construíam barreiras mais espessas tinham versões mais ativas do gene. Já as que exibiam suberina mais irregular carregavam cópias menos ativas.
A correspondência foi tão forte que o próximo passo foi investigar a função dessa proteína.
Antes deste trabalho, não havia qualquer função atribuída a esse gene em nenhuma planta. Ninguém o havia relacionado a barreiras radiculares, sinalização hormonal ou a outro processo. Ele permanecia no genoma de Arabidopsis como um parágrafo ainda não lido.
Um estudo recente em tomates havia associado a suberina à tolerância à seca, mas o “controle” genético seguia sem aparecer. Ao combinar variação natural de plantas silvestres com mapeamento genômico, a equipe conseguiu finalmente revelar um.
Como o gene atua
“Este gene atua como um regulador-chave da suberina: quando está mais ativo, a barreira fica mais forte; quando é interrompido, ela se forma de modo menos eficiente”, afirmou Han.
Para entender o modo de ação, o time investigou a quais outras proteínas o SBG1 se liga. Ele se conectou a uma família de enzimas vegetais que ajuda a regular respostas ao estresse.
Quando essas enzimas eram removidas, a barreira ficava ainda mais espessa - exatamente o contrário do que ocorre quando o próprio SBG1 é desativado.
Ou seja, dentro da raiz existem dois sistemas que atuam em sentidos opostos.
A ligação com o hormônio
No centro desse circuito está o ácido abscísico, hormônio liberado pelas plantas quando percebem falta de água.
Pesquisas anteriores já sugeriam uma relação entre esse hormônio e a suberina, mas o “cabeamento” preciso não estava definido.
O novo estudo acrescenta uma peça que faltava. Em conjunto, SBG1 e aquelas enzimas parecem determinar com que intensidade o sinal do ácido abscísico chega até a maquinaria que constrói a barreira.
Na ausência deles, o efeito do hormônio sobre a suberina fica abafado.
“Os nossos resultados mostram que a modulação de respostas hormonais que afetam a deposição de suberina é um elemento central da estratégia de adaptação das plantas ao clima”, disse Barberon.
Culturas mais resistentes no futuro
Em termos simples: plantas de climas mais severos evoluíram mangas radiculares mais espessas, e um gene antes desconhecido ajuda a definir essa espessura.
Isso abre uma possibilidade para melhoristas. Trigo, arroz, tomate e outras culturas essenciais possuem suas próprias versões da barreira de suberina.
Mirar o SBG1 ou as enzimas com as quais ele interage pode permitir o desenvolvimento de plantas agrícolas que conservem melhor a água durante períodos secos.
Com a agricultura sob chuvas cada vez mais irregulares, um “controle” desse tipo está há muito tempo na lista de desejos. A equipe de Genebra acabou de colocar esse recurso mais perto do alcance.
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