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DEET: estudo mostra que mosquitos podem ser condicionados a se aproximar

Cientista aplica repelente em mosquito preso na mão dentro de laboratório.

Repelentes contra mosquitos são fundamentais para nos proteger das picadas e dos agentes infecciosos que esses insetos podem transportar. Entre os ingredientes ativos mais usados em repelentes, o principal é a N,N-dietil-meta-toluamida, mais conhecida como DEET.

Por ser muito eficaz, ter longa duração (cerca de cinco horas) e ser barato de produzir, o DEET virou o padrão-ouro dos repelentes.

Ainda assim, apesar de ter sido criado há mais de 80 anos, continuam existindo lacunas importantes sobre o modo exato como o DEET funciona.

Um artigo recente no Journal of Experimental Biology, liderado por Claudio Lazzari, da Universidade de Tours, na França, mostra agora que mosquitos podem ser condicionados a se sentir atraídos pelo DEET.

Esse achado acrescenta uma peça relevante ao quebra-cabeça sobre o funcionamento do DEET - e sugere que esse repelente tão importante pode ter um ponto fraco.

Uma ferramenta vital que ainda não é totalmente compreendida

Repelentes são uma das principais formas de proteção contra doenças transmitidas por mosquitos, incluindo malária, dengue, chikungunya, vírus Ross River, vírus da encefalite japonesa e outras.

Muitas dessas enfermidades estão se expandindo globalmente por causa de viagens, urbanização e mudanças climáticas.

As fêmeas de mosquito transmitem parasitas e vírus quando se alimentam do sangue de vertebrados, que fornece as proteínas necessárias para o desenvolvimento dos ovos.

Para localizar a próxima refeição de sangue, os mosquitos são fortemente atraídos por odores e pistas físicas emitidas por "hospedeiros" de sangue quente, incluindo seres humanos.

Entre essas pistas estão o dióxido de carbono que expiramos, o ácido lático presente no suor e uma combinação complexa de outras substâncias químicas que varia de pessoa para pessoa.

Os mosquitos percebem tudo isso por meio de órgãos sensoriais nas antenas, na probóscide (a parte bucal pontiaguda usada para sugar sangue) e nos palpos maxilares que a ladeiam.

O DEET é amplamente usado comercialmente desde a década de 1950, mas há muita discussão científica sobre o que ele faz, exatamente, para afastar mosquitos. Ele mascara o cheiro do hospedeiro? É tóxico para o inseto? Ou atua de outra maneira?

Em 2008, um trabalho marcante mostrou que o DEET bloqueia a resposta de neurônios sensoriais aos odores do hospedeiro em mosquitos e moscas-do-vinagre. Isso indica que o DEET provavelmente "confunde" o mosquito, em vez de simplesmente repeli-lo.

Alguns anos depois, pesquisadores observaram que uma pequena parcela de mosquitos expostos ao DEET não reage a ele - e que essa característica é hereditária.

Ou seja, existe, sim, uma resposta fisiológica ao DEET. Ao mesmo tempo, há indícios de que parte das reações também seja comportamental.

Em um estudo, mosquitos expostos ao DEET ficaram menos sensíveis a ele quando voltaram a ser expostos dentro de três horas. Isso sugere que eles podem se acostumar temporariamente ao composto.

O que o novo estudo descobriu?

O novo estudo mostra que é possível condicionar mosquitos a tentar picar mais quando eles são expostos repetidamente ao DEET durante uma refeição de sangue.

Além de aprofundar o entendimento sobre como o DEET afeta esses insetos, o resultado levanta a possibilidade de que, em certas situações, os mosquitos possam até se orientar em direção ao DEET.

Para começar, os pesquisadores criaram um teste comportamental. Eles mantiveram mosquitos em gaiolas muito pequenas e aproximaram deles um alvo alimentar (uma bolsa de sangue aquecida), registrando os movimentos da probóscide quando os insetos percebiam o alvo. Essa medida foi chamada de "resposta de tentativa de picada".

Para avançar na investigação, a equipe realizou um experimento de condicionamento clássico. Os mosquitos passaram por um de cinco "programas de treino", nos quais foram expostos a diferentes combinações de um estímulo não condicionado (calor), um estímulo condicionado (exposição curta ao DEET em uma pluma de ar) e uma recompensa (uma breve oportunidade de se alimentar de sangue).

E aqui entra a parte inesperada. Os mosquitos cujo programa de treino incluía um jato de DEET enquanto já estavam se alimentando do sangue, depois apresentaram uma resposta de tentativa de picada significativamente maior quando foram expostos novamente ao DEET.

Já quando os mosquitos eram expostos ao DEET antes de receberem a bolsa de sangue, nenhum deles tentou picá-la.

Em seguida, uma das pesquisadoras se dispôs a usar as próprias mãos no teste.

Uma das mãos recebeu DEET. Cerca de 50% dos mosquitos que passaram pelo programa de treino com refeição de sangue na presença de DEET tentaram picar a mão coberta com DEET.

Em contraste, 100% dos mosquitos não treinados evitaram a mão com DEET e preferiram a mão sem o produto.

O que tudo isso significa?

Sabe-se bem que mosquitos conseguem aprender e reter informações. Aquilo que eles aprendem sobre hospedeiros e sobre o ambiente pode, por sua vez, influenciar a transmissão de doenças.

Este estudo sugere que o DEET não atua apenas por vias fisiológicas nos mosquitos. Há também uma resposta cognitiva, que pode ser uma parte importante de como o repelente funciona.

Os autores levantam uma possibilidade: se a concentração de DEET não for alta o suficiente para repelir mosquitos, mas ainda assim eles o detectarem durante uma refeição de sangue, esses mosquitos passariam a ter maior probabilidade de picar pessoas com cheiro de DEET?

É importante destacar que o estudo foi conduzido em condições de laboratório altamente controladas, e que o programa de treino aplicado aos mosquitos pode não representar situações do dia a dia.

Pesquisas futuras deveriam propor condições de teste que se aproximem melhor do mundo real, para verificar se esses resultados se mantêm.

Em um momento em que as doenças transmitidas por mosquitos estão aumentando, o DEET ainda oferece proteção altamente eficaz.

O que este estudo acrescenta é uma compreensão mais detalhada de como o DEET funciona - e de como poderemos melhorar os repelentes no futuro.

Leon Hugo, Professor Associado Adjunto, Laboratório de Controle de Mosquitos, QIMR Berghofer Medical Research Institute

Este artigo foi republicado de The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.


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