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Por que roedores roem quase tudo: a dopamina explica, diz a Universidade de Michigan

Rato branco em laboratório com pedaços de madeira e imagem cerebral em tela ao fundo.

Por que os roedores roem praticamente tudo o que encontram? À primeira vista, o comportamento parece bem direto: um camundongo ou um esquilo fica roendo madeira ou objetos duros para manter os dentes curtos.

Só que um estudo recente da Universidade de Michigan indica que a mastigação vai além de uma necessidade mecânica. O cérebro, de fato, recompensa esse ato.

Os cientistas observaram que o ato de roer aciona a liberação de dopamina, uma substância cerebral associada a prazer e motivação.

Com isso, a pesquisa sugere que roer não serve apenas para controlar o crescimento dos dentes: o próprio cérebro estimula e reforça o hábito.

Os resultados também ajudam a lançar luz sobre certos comportamentos humanos, como roer unhas e ranger os dentes.

Por que os roedores precisam roer o tempo todo

O grupo dos roedores inclui animais como camundongos, ratos, esquilos, castores e capivaras. Eles roem continuamente ao longo da vida porque os dentes incisivos crescem sem parar; mastigar e roer evita que esses dentes fiquem longos demais.

A própria palavra “roedor” tem origem em um termo latino com o sentido de “roer”. Sem esse desgaste frequente, os dentes continuariam crescendo e poderiam causar problemas importantes. Dentes excessivamente compridos podem alterar o alinhamento da mandíbula e dificultar a alimentação.

Durante muitos anos, a explicação mais aceita era a de que roer seria apenas um reflexo. Nesse raciocínio, os roedores mastigariam somente para manter os dentes em um comprimento adequado.

Ao acompanhar camundongos de laboratório, porém, pesquisadores da Universidade de Michigan notaram um detalhe inesperado.

Alguns animais apresentaram dentes mais longos do que o previsto. Isso levantou a hipótese de que a mastigação não depende apenas de um mecanismo automático e simples.

Uma descoberta surpreendente no cérebro: dopamina

Bo Duan, da Faculdade de Letras, Ciências e Artes da Universidade de Michigan, trabalhou com Joshua Emrick, da Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan, para investigar o que sustentava esse comportamento.

“Na visão antiga, todo mundo meio que acreditava que roer era um comportamento muito passivo, guiado por considerações mecânicas”, afirmou Bo Duan.

“O que estamos aprendendo é que isso é, de fato, um comportamento motivado. Há um circuito neural definido que conecta a entrada sensorial dos dentes aos neurônios de dopamina no mesencéfalo.

“Isso nos diz que até comportamentos muito básicos de manutenção são reforçados ativamente pelo cérebro.”

Os experimentos indicaram que mastigar aciona um sistema de recompensa cerebral. A liberação de dopamina faz com que os roedores tenham mais impulso para continuar roendo.

Como o cérebro controla a mastigação

Para entender como a informação sai da boca e chega ao cérebro, a equipe analisou camundongos e rastreou o caminho desses sinais. Os pesquisadores identificaram neurônios sensíveis ao toque ao redor dos dentes, capazes de perceber a pressão exercida durante a mastigação.

Os sinais desses neurônios seguem até um ponto de conexão de onde partem dois trajetos diferentes. Um deles comanda o movimento da mandíbula e contribui para posicionar os dentes, cuidando da parte física do ato de mastigar.

O segundo trajeto segue para o mesencéfalo e ativa neurônios de dopamina. É esse ramo que gera motivação ao recompensar o comportamento.

“Se você bloquear a via da motivação, a via sensório-motora continua intacta e isso ajuda a manter os dentes”, disse Duan. “Mas, sem a motivação, simplesmente não é muito eficiente. Então a parte da motivação é muito importante.”

O achado reforça que o cérebro tem um papel ativo em sustentar e incentivar o ato de roer.

O que isso significa para os animais

Para os roedores, roer é um comportamento crucial para a sobrevivência. Manter o comprimento adequado dos dentes facilita morder e ingerir alimentos. Um bom alinhamento da mandíbula também é essencial para uma alimentação normal.

O sistema de recompensa do cérebro funciona como uma garantia de que esses animais vão roer com frequência suficiente. Ao reforçar o hábito, o organismo favorece ações que mantêm os dentes em boas condições.

Agora, cientistas consideram que muitos comportamentos repetitivos em animais podem operar de modo parecido. O cérebro pode recompensar atividades que contribuem para a manutenção do corpo.

Relações com hábitos humanos

Embora o estudo tenha sido feito com camundongos, as conclusões podem ter relevância para humanos. Os dentes humanos deixam de crescer depois de certa idade, mas circuitos cerebrais semelhantes podem continuar influenciando o comportamento.

“Mesmo que os dentes humanos parem de crescer, os mecanismos cerebrais que impulsionam comportamentos orais repetitivos ainda podem estar operando”, disse Duan. “Entender esse circuito nos ajuda a ver como sinais sensoriais da boca influenciam a motivação e, potencialmente, a saúde bucal.”

Essa ligação pode ajudar a explicar hábitos como roer unhas ou mastigar objetos.

Algumas condições odontológicas também se relacionam à química cerebral. O bruxismo faz com que a pessoa range ou aperte os dentes sem perceber. Já a má oclusão acontece quando os dentes superiores e inferiores não se encaixam corretamente.

Transtornos cerebrais e problemas odontológicos

Joshua Emrick, que estuda sensação oral na Faculdade de Odontologia da Universidade de Michigan, avalia que a descoberta pode ampliar a compreensão de problemas dentários.

“Acho que o impacto mais duradouro disso é que nos ajuda a entender por que os animais apresentam comportamentos orais repetitivos e como isso se relaciona à patologia humana”, disse Emrick.

“Se você tem um mau funcionamento do sistema em um nível mais alto, no fim isso pode ser muito destrutivo para nossos tecidos orais e, sinceramente, não temos tratamentos direcionados para o problema subjacente. Precisamos de um entendimento fundamental de como e onde esses comportamentos estão sendo impulsionados no cérebro.”

Algumas condições neurológicas também repercutem na saúde bucal. Pessoas com autismo ou depressão, por vezes, apresentam taxas mais altas de problemas de alinhamento dentário. A doença de Parkinson altera os níveis de dopamina, e alguns tratamentos podem levar ao ranger de dentes por longos períodos.

Implicações para o futuro

A equipe espera que essa descoberta ajude a criar tratamentos melhores para questões de saúde bucal. Ao mapear os circuitos cerebrais envolvidos nesses comportamentos, pesquisadores podem identificar novas soluções médicas.

“Agora temos evidências de uma ligação por meio de circuitos biológicos que pode estar contribuindo”, disse Emrick.

Os cientistas também querem verificar se circuitos semelhantes no cérebro controlam outros comportamentos.

“Acreditamos que isso possa representar um princípio mais geral”, disse Duan. “Entender como esses circuitos são organizados poderia, eventualmente, nos ajudar a direcioná-los quando o comportamento se torna mal adaptativo.”

O trabalho mostra que até um gesto aparentemente simples, como mastigar, pode revelar conexões importantes entre cérebro e corpo.

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