Um novo estudo mostrou que ossos de animais espalhados pelo chão de cavernas subaquáticas guardam um registro oculto de como foram parar ali. Esse registro indica se cada osso se acomodou enquanto estava submerso ou quando repousou em terra seca. E boa parte dessa história é escrita pela luz.
As marcas funcionam como impressões digitais. Ao interpretá-las, os pesquisadores conseguem distinguir se um osso estava debaixo d’água ou exposto ao ar no momento em que se fixou no lugar.
Com isso, fica mais fácil destrinçar a trajetória de cavernas que alternam entre inundação e drenagem ao longo de milhares de anos.
Duas cavernas, muitos ossos
Os ossos analisados vieram de duas cavernas cheias d’água perto do Monte Gambier, uma cidade no sudeste da Austrália do Sul conhecida por dolinas alagadas que pontilham o calcário da região.
Um dos locais, o Poço d’Água Verde, é uma bacia colapsada com túneis submersos que se ramificam a partir de um montículo central seco.
O outro, o Sumidouro de Gouldens, é um poço quase vertical que desce cerca de 61 m abaixo do nível do solo. Ambos ficam em pastos cercados e, há mais de um século, vêm engolindo restos de animais.
Meg M. Walker, doutoranda no Centro Australiano de Pesquisa em Evolução Humana da Universidade Griffith, liderou a equipa que recuperou 231 ossos. Mergulhadores trabalharam nas áreas inundadas, enquanto outros integrantes vasculharam os trechos secos.
A maior parte dos animais era de criação, com bovinos, ovinos e suínos, misturados a espécies nativas, como cangurus e gambás.
Datação dos ossos
A datação por radiocarbono de 41 exemplares, realizada na Organização Australiana de Ciência e Tecnologia Nuclear (ANSTO), situou os ossos entre meados do século XIX e a década de 1970.
Esse intervalo permitiu observar como se acumulam, ao longo de décadas - e não apenas num único evento - as marcas da tafonomia, a área que estuda o que acontece com os restos após a morte.
A abordagem também aponta para um enigma muito mais antigo. Nessas mesmas cavernas, ossos de animais gigantes extintos aparecem lado a lado com os de gado e outros animais de fazenda. Tudo amontoado no chão, sem camadas que indiquem de que época é cada conjunto.
Walker, que conduziu o trabalho, escreveu num e-mail para a Earth.com: “Associating extinct Megafaunal species with their local environments helps to answer the mystery of why they went extinct.”
Ossos molhados duram mais do que secos
Ao comparar as três coleções, os ossos provenientes das áreas submersas estavam em condições muito melhores do que aqueles deixados na superfície seca. Cerca de dois terços dos ossos submersos preservaram a maior parte da sua estrutura, contra menos de metade dos ossos secos.
A boa preservação em ambiente subaquático não é exatamente uma novidade - é um dos motivos pelos quais essas cavernas são tão valorizadas. O que faltava, porém, era uma comparação cuidadosa entre depósitos molhados e secos dentro do mesmo sistema.
Uma revisão anterior, feita por dois dos autores, já defendia que a presença ou ausência de água é o fator isolado mais determinante para o que se mantém preservado dentro de uma caverna.
Em terra firme, ossos são pisoteados, roídos e acabam se partindo. Debaixo d’água, a água parada tende a deixá-los praticamente intactos. Muitos foram recuperados quase inteiros, e alguns ainda mantinham a medula preservada no interior.
A água, por outro lado, deixa a sua própria assinatura. Ossos submersos saíram macios e precisaram secar lentamente no laboratório; durante a secagem, as camadas externas se desprenderam em lâminas - um processo que a equipa chama de delaminação.
Essa descamação também serve como pista: aponta ossos que ficaram molhados e depois secaram, como ocorre quando o nível da água na caverna sobe e desce.
A luz “escreve” as marcas
Os ossos submersos exibiam ainda sinais superficiais ausentes nos ossos secos. A corrosão deixou alguns com manchas negras de contornos bem definidos e consumiu partes da superfície.
Outros apresentavam um entalhe curioso em forma de anel. Os círculos, com cerca de 0,5 cm de diâmetro, às vezes surgiam isolados e às vezes em grupos. Eles apareceram apenas em ossos que estavam debaixo d’água. A causa continua desconhecida.
A coloração foi o achado mais inesperado. Ela não acompanhava a profundidade onde o osso estava, nem se ele havia ficado enterrado em sedimento. O padrão seguia a luz.
As manchas escuras concentravam-se nas faces que ficaram voltadas para cima, em direção à fraca luminosidade que entra pela boca da caverna. Já as superfícies inferiores, sombreadas, permaneceram limpas.
A explicação mais provável é a ação de cianobactérias e outros microrganismos que cobrem o osso com biofilmes vivos. Esses organismos fazem fotossíntese.
Eles crescem em direção à luz e, ao se espalharem, escurecem e corroem o osso. Onde a luz alcançou, prosperaram; no lado sombreado, mal conseguiram se estabelecer.
Evidências dentro do osso
O mesmo desenho aparecia no interior do tecido ósseo. Ao microscópio, amostras submersas mostraram-se atravessadas por minúsculos túneis, escavados até cerca de 0,25 cm de profundidade - um tipo de dano que outro estudo associou às cianobactérias.
Nos ossos secos, em vez disso, havia perfurações distribuídas por toda a estrutura, causadas por uma mistura de bactérias do solo, sem o padrão que vai da superfície para dentro.
Um osso, em particular, deixou a diferença evidente. Recuperado no trecho mais escuro de uma caverna, bem além do alcance da luz, ele não apresentava qualquer tunelamento.
De novo, tudo volta à luz. Em conversa com a Earth.com, Walker afirmou: “However, as you go further into the dark zone, bones are pristine because there are no plants, and microbial community has changed with the lack of light.”
Lendo o passado de uma caverna
Somadas, essas marcas oferecem aos pesquisadores um ponto de referência para interpretar a história de cada osso. Uma superfície escurecida e com túneis sugere tempo passado submersa em zona iluminada.
Camadas externas descamando denunciam um osso que, mais tarde, foi exposto quando a água baixou. Já um osso limpo, com fissuras profundas, indica que permaneceu seco durante todo o período.
O ganho é especialmente grande em cavernas que alternaram entre inundação e drenagem durante ciclos glaciais. Nelas, restos de épocas muito diferentes se acumulam sem estratificação que os separe.
Distinguir depósitos formados em ambiente molhado daqueles em ambiente seco dá aos pesquisadores uma forma de reconstituir quando a caverna tinha água - e ajuda a interpretar depósitos que pareciam irremediavelmente misturados.
Lições de um naufrágio
A ligação com a luz já havia aparecido antes, num contexto improvável: em restos humanos do navio de guerra Tudor Mary Rose.
Um estudo identificou o mesmo tipo de tunelamento microbiano apenas nos ossos alcançados por água e luz, e não naqueles isolados pela escuridão sob o casco colapsado.
Os ossos das cavernas acrescentam um detalhe sobre o tempo. As marcas se formam rapidamente, em cerca de 50 anos, e quase não mudam depois disso - ou seja, até um período curto submerso pode deixar um sinal duradouro.
Continuidade da pesquisa
Walker e os colegas descrevem o resultado como o primeiro parâmetro desse tipo para esses locais alagados, e a equipa já está avançando.
Questionada pela Earth.com sobre os próximos passos, Walker disse: “As we dive deeper, we continue to explore differences between wet and dry deposition by investigating the biochemical makeup of the fossils using infrared light.”
Por enquanto, o principal retorno é conseguir ler aquilo que antes parecia ilegível. Os leitos de ossos embaralhados no piso dessas cavernas passam a se parecer mais com um registro de água, luz e tempo.
Crédito da foto: Steve Trewavas
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