Os norte-americanos demonstram mais disposição para agir diante de um problema nacional quando cientistas e cidadãos comuns defendem a mesma solução - mesmo que o governo e grandes empresas se posicionem contra. Um novo estudo com cerca de 55,000 pessoas concluiu que essa dupla convergência, científica e social, convence mais do que o aval de instituições poderosas.
O achado indica que um bloqueio no topo não precisa paralisar o restante da sociedade. Quando especialistas e gente do dia a dia concordam de forma visível, esse sinal partilhado ainda consegue levar indivíduos a apoiar uma política, doar recursos ou interagir online - oferecendo a defensores de causas uma maneira de ganhar tração sem depender do Congresso ou de salas de reunião corporativas.
Testando fontes de influência
A equipa responsável pelo estudo quis entender quais vozes, na prática, conseguem mudar comportamentos quando um país enfrenta crises de saúde, ambientais ou tecnológicas. Para isso, comparou diretamente a influência de cientistas, outros cidadãos, governo e indústria.
A pesquisa foi liderada por Anandita Sabherwal, pós-doutoranda associada tanto ao Boston College quanto à Princeton University. A mensagem central é otimista. Em entrevista à Earth.com, a autora principal, Sabherwal, afirmou: “Nossos resultados sugerem que a inação do governo e das empresas não torna a ação pública inútil.”
Ao longo de quatro experimentos, os participantes liam que uma solução proposta recebia apoio ou oposição de cientistas, da maioria dos cidadãos, de agências governamentais ou de empresas privadas. Em seguida, decidiam se também iriam agir a favor dessa solução.
“Agir”, nesse contexto, podia significar apoiar uma política, optar por um produto, fazer uma doação ou interagir com uma mensagem na internet. Algumas medidas foram comportamentos reais, e não apenas intenção declarada - incluindo doações a uma organização sem fins lucrativos e interações com publicações autênticas em redes sociais.
Cientistas levaram vantagem
Gregg Sparkman, professor assistente de psicologia e neurociência no BC e autor sénior do estudo, disse que a magnitude do efeito surpreendeu a equipa.
Em e-mail à Earth.com, Sparkman escreveu: “A força do efeito foi maior do que eu esperava - os americanos preferem muito fortemente uma solução que é apoiada por cientistas e pela maioria dos cidadãos.”
A inclinação foi evidente. Quando tinham de escolher, os participantes selecionaram a alternativa endossada por cientistas e pelo público em cerca de 80% das vezes, e a oposição de governo ou indústria quase não diminuiu essa preferência.
Quando instituições se opõem
O resultado mais nítido apareceu justamente quando instituições poderosas rejeitavam uma solução. Mesmo assim, as pessoas continuavam dispostas a agir. Quando cientistas e cidadãos comuns endossavam conjuntamente a proposta, os participantes mantinham a disposição de apoiá-la. Até este estudo, a maioria dos trabalhos avaliava essas vozes separadamente, em vez de colocá-las em confronto direto.
O efeito também foi amplo em temas. O mesmo padrão surgiu em questões ambientais, de saúde e de tecnologia - incluindo política climática, vacinas e privacidade de dados. Além disso, influenciou pessoas em ambos os lados do espectro político.
Essa combinação é o que diferencia o achado. Um experimento anterior em 27 países mostrou que informar o público sobre concordância científica corrigia percepções erradas e ajustava crenças, mas, sozinho, quase não elevava o apoio à ação pública.
A resistência à “oposição de cima” não se limitou a um grupo. O padrão manteve-se em todo o espectro político. Em conversa com a Earth.com, Sparkman explicou: “Liberais e conservadores valorizam muito o que os cientistas e a maioria dos cidadãos preferem - mesmo quando se deparam com oposição do governo ou da indústria.”
Houve diferenças pequenas na ênfase. Quem tende mais à esquerda deu um peso um pouco maior ao acordo científico, enquanto quem tende mais à direita atribuiu pesos aproximadamente equivalentes à ciência e à opinião pública. Ainda assim, a combinação moveu ambos os grupos.
Um ponto cego partilhado
Um motivo para esse sinal conjunto funcionar é que as pessoas erram muito ao estimar onde os outros realmente estão. Psicólogos chamam isso de ignorância pluralista. No caso do clima, a distância entre a opinião real e a opinião presumida é grande - e pode fazer quem se importa com o tema sentir que pertence a uma minoria isolada.
Sparkman ajudou a documentar essa diferença num estudo nacional anterior. Ele mostrou que os defensores de políticas climáticas importantes superam os opositores em cerca de 2 para 1, mas a maioria dos norte-americanos acredita que ocorre o contrário. Essa discrepância alimenta um ciclo: como as pessoas tendem a seguir o que pensam que os outros acreditam, uma maioria “invisível” fica em silêncio e o apoio parece menor do que é.
Ao corrigir essa percepção - deixando claro que especialistas e público concordam - ativam-se normas sociais e dá-se às pessoas um motivo para agir. O resultado também se liga a um dilema clássico em pesquisas sobre ação coletiva: muitos recuam porque duvidam que outros também participem.
Parte do problema é que esse acordo costuma não aparecer com clareza. Ao comentar essa lacuna para a Earth.com, Sparkman observou: “Não ouvimos diretamente de uma maioria de cientistas, nem sabemos como a maioria dos nossos concidadãos se sente em relação a um tema.”
Construindo impulso público
O estudo mostra que uma voz combinada de cientistas e do público pode gerar ação real mesmo quando os detentores habituais de poder se recusam a avançar.
Isso dá a organizadores e a campanhas de saúde pública uma ferramenta concreta. Em vez de mirar apenas autoridades ou empresas, eles podem tornar mais visível o consenso que especialistas e pessoas comuns já partilham.
Outros trabalhos reforçam o valor de sinais sociais. Num ensaio que testou mais de uma dezena de maneiras de estimular envolvimento com o clima, as mensagens que enfatizavam que os pares já estavam a agir foram as que mais levaram as pessoas a partilhar notícias e petições.
Olhando para além dos EUA
Agora, os pesquisadores planeiam verificar se o mesmo padrão se repete em países onde a confiança em cientistas, governos e nas próprias pessoas ao redor é diferente. Questionada pela Earth.com sobre o estudo internacional em preparação, Sabherwal disse: “Esperamos que o padrão varie tanto entre sociedades quanto entre temas.”
Em lugares onde os governos têm mais confiança pública do que nos Estados Unidos, ela espera que os sinais governamentais tenham muito mais peso. O inverso também pode ocorrer: o apoio científico tende a perder força onde cientistas são menos confiáveis.
Para um público frustrado, a principal mensagem é que a concordância entre especialistas e pessoas comuns ainda pode inclinar decisões, com ou sem ajuda de quem está no topo. Mesmo quando líderes travam, uma aliança visível entre cientistas e cidadãos oferece às pessoas comuns um motivo para agir.
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