Quando biólogos descrevem uma espécie nova no século XXI, na maioria das vezes isso acontece porque fizeram uma nova análise de DNA, observaram detalhes adicionais ao microscópio ou reuniram amostras em ambientes muito além da nossa zona de conforto.
Mesmo assim, primatólogos acabam de confirmar a existência de uma espécie de macaco que, até aqui, tinha passado despercebida pela literatura científica.
Uma descoberta rara no século XXI
O nome científico é Colobus congoensis - um primata que vinha “se escondendo” há muito tempo na floresta tropical situada entre os rios Lomami e Congo (Lualaba), na região leste-central da República Democrática do Congo (RDC).
Para quem quiser ver o registo em vídeo:
- Vídeo no YouTube: https://www.youtube.com/embed/nL86XLZPSag?feature=oembed
Ainda que muitas pessoas vivam dentro da área onde o animal ocorre, os avistamentos sempre foram incomuns.
Quando aparecia, o povo Bangala chamava o macaco de “Likweli”; já moradores Mituku usavam o nome “kasaba nkoni”, “o sacudidor de galhos”.
Onde vive o Colobus congoensis (o “Likweli”)
Conservacionistas da Lukuru Wildlife Research Foundation, Bernard Ikembelo e Ashley Vosper, obtiveram a primeira prova fotográfica de um Likweli em 2008 - numa área que viria a tornar-se o Parque Nacional de Lomami em 2016.
Ainda assim, aquela imagem foi só um vislumbre.
Como os cientistas confirmaram a nova espécie
Agora, quase 20 anos depois, investigadores reuniram 114 observações de campo do Likweli e evidências suficientes para demonstrar que se trata, de facto, de uma espécie de primata totalmente nova.

O C. congoensis não parece muito satisfeito por ter sido “encontrado”. (Junior Amboko/Florida Atlantic University)
A descrição oficial da espécie foi publicada na revista científica PLOS One.
"Após o avistamento inicial [fotografado], não houve mais registos até novembro de 2018, quando Jean Pierre Kapale liderou uma patrulha de vigilância no Setor Courbure e fotografou um macaco preto com marcações claras ao redor da boca e uma mancha perianal branca", escreve a equipa de pesquisa, que reúne cientistas de instituições da RDC e dos EUA.
O animal não se parecia com nenhum outro macaco já observado naquela região.
"Ao longo dos 10 meses seguintes, Kapale e a sua equipa, recorrendo a patrulhas de vigilância e buscas direcionadas acompanhadas por assistentes de campo locais, encontraram e documentaram fotograficamente o macaco mais sete vezes em locais diferentes", relata a equipa.
Com a inclusão de fotografias adicionais provenientes de patrulhas de outros grupos que atuam no Parque Nacional de Lomami, o conjunto de dados ficou robusto o suficiente para sustentar a validação da nova espécie: 114 avistamentos em cerca de 1.700 km², entre 2018 e 2022.

Legenda: C. congoensis (A e B) comparado a outra espécie, C. satanas (C e D). (A - Daniel Rosengren/B - Bravo Bofenda/C - Martin Royele, Royele Safaris/D - Barna Takats)
"Esta descoberta é ao mesmo tempo empolgante e profundamente pessoal, pois evidencia a biodiversidade extraordinária da minha terra natal - e o quanto ainda permanece sem documentação", diz o biólogo Junior Amboko, da Florida Atlantic University.
"Senti-me honrado por nomear a espécie como 'Colobus congoensis', reconhecendo o notável património natural da Bacia do Congo e, acreditamos, assinalando o primeiro primata batizado com referência direta à própria República Democrática do Congo - destacando tanto a sua importância global quanto o orgulho local."
O que diferencia o Colobus congoensis: aparência, genética e vocalizações
Vale dizer: estes macacos têm rostos marcantes - olhos escuros e curiosos, maçãs do rosto que fariam a Cher ficar com inveja, e um biquinho rosado-alaranjado, quase de modelo, que poderia muito bem inspirar uma nova tendência de batom.

O pelo preto e lustroso e a cauda longa e caída contrastam com um “choque” de fios espetados que se abrem ao redor do rosto expressivo.
A análise genética mostrou que o C. congoensis está separado do seu parente mais próximo por 4 ou 5 milhões de anos.
"A descoberta de Colobus congoensis está a reformular a nossa compreensão sobre a evolução dos macacos africanos", diz a antropóloga Kate Detwiler, também da Florida Atlantic University.
"O seu parente mais próximo conhecido é Colobus satanas, encontrado a mais de 1.200 quilômetros de distância, na região oeste-central da África. No entanto, as nossas evidências genéticas mostram que as duas espécies divergiram há aproximadamente 4 a 5 milhões de anos - uma das separações evolutivas mais antigas conhecidas dentro da linhagem Colobus."

(Daniel Rosengren)
E não é apenas a aparência e o DNA que o separam de outros integrantes do género: seis gravações de áudio indicaram que os seus rugidos graves também têm uma assinatura acústica própria.
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Ameaças e urgência de conservação
A espécie pode ter sido reconhecida por pouco: a sua distribuição é restrita e, como outras espécies da região, enfrenta perda de habitat e pressão da caça.
"A descoberta de Colobus congoensis é simultaneamente um triunfo científico e um lembrete alarmante de que algumas das criaturas mais raras da Terra podem desaparecer antes mesmo de o mundo saber que elas existem", diz Detwiler.
O estudo foi publicado na PLOS One.
Este artigo foi verificado por Rachel Garner e editado por Michael Irving. Embora tenhamos orgulho do nosso processo, somos humanos. Se você encontrar algum erro, por favor avise-nos.
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