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Estudo mostra que baleias-jubarte ajustam a altura do canto quando outra voz se aproxima

Duas baleias em águas profundas liberando bolhas com luz solar entrando pela superfície do mar.

Um novo estudo constatou que as baleias-jubarte alteram a altura (pitch) dos seus cantos quando outro cantor começa a vocalizar nas proximidades.

Esse resultado muda a interpretação do canto das baleias: em vez de um espetáculo isolado, ele pode funcionar como uma troca ao vivo, revelando uma flexibilidade vocal que os cientistas ainda não tinham reconhecido nesses animais.

Os cantos das baleias mudam

Perto do Havaí, essa mudança apareceu em gravações de baleias que estavam cantando sozinhas até que uma segunda voz passou a ser ouvida na água.

A partir desse material, Julia Hyland Bruno, Ph.D., do Instituto de Tecnologia de Nova Jersey (NJIT), mostrou que o primeiro cantor frequentemente ajustava a altura do canto assim que um vizinho se tornava audível.

Longe de ser uma exceção, o padrão se repetiu em dez duplas de baleias: em nove delas, os primeiros cantores mudaram a altura média entre 3 e 10 hertz.

A descoberta confirma que cantores próximos influenciam um ao outro em tempo real - mas ainda deixa em aberto uma questão mais profunda: a que parte do canto, exatamente, eles estão reagindo.

Ouvindo do fundo do mar

A equipe usou como base um hidrofone no fundo do mar - um microfone subaquático - que gravou continuamente ao largo do Havaí durante a temporada de 2014-2015.

Em vez de perguntar se duas baleias cantavam frases semelhantes ao mesmo tempo, os pesquisadores observaram o que se alterava depois que um vizinho entrava na cena sonora.

A amostra reuniu 26 sessões de canto; 20 envolviam pares, e algumas gravações se estenderam por quase nove horas.

Esse recorte mais longo foi importante porque trechos curtos podem deixar passar ajustes que surgem, desaparecem e voltam a ocorrer dentro da mesma interação.

Ritmo versus altura

Quando os cientistas analisaram a sequência de partes maiores do canto, os pares não apresentaram sobreposição de seções equivalentes acima do que seria esperado ao acaso.

Para chegar a essa conclusão, eles compararam pares reais com pareamentos artificiais, criados ao sobrepor gravações de cantos solo.

No conjunto dos dados, pares naturais se sobrepuseram por cerca de 15% do tempo, muito próximo dos 16% observados nos solos “costurados”.

Esse achado enfraquece um relatório de 2018 que descrevia cantores próximos como participantes de uma competição centrada principalmente em temas sincronizados.

Baleias evitam sobreposição

A altura ofereceu às baleias um caminho alternativo de reação quando dois cantos longos ocupavam o mesmo trecho de água.

Como o som se propaga tão bem no ambiente subaquático, o canto de um indivíduo pode confundir o do outro, gerando interferência acústica - sons que se misturam e “borram” para quem ouve.

A maioria dos co-cantores respondeu mantendo as alturas separadas por pelo menos dez hertz, e esse padrão de espaçamento apareceu em 77% dos cantos.

O comportamento sugere que algumas baleias podem preservar uma pequena “faixa pessoal” de espaço de altura, em vez de simplesmente aumentar o volume.

Ajustes dinâmicos de altura

Ainda assim, a separação não explicou tudo, porque certos pares, por breves momentos, também se aproximaram da mesma altura.

Nove de dez duplas exibiram alturas convergentes, notas coincidentes, notas que se afastavam ou pausas que alteravam o grau de sobreposição.

Essas reações ocorreram tanto em partes correspondentes quanto em partes não correspondentes do canto, indicando que as baleias não estavam apenas seguindo um roteiro comum.

Em outras palavras, a escuta e a resposta momento a momento podem contar mais do que o formato geral de um canto que pode durar muitos minutos.

Uma habilidade vocal rara

Para Eduardo Mercado III, Ph.D., da Universidade em Buffalo, o aspecto mais surpreendente é o quão incomum essa flexibilidade parece ser.

“O que as jubartes estão fazendo é parecido com o que músicos de jazz podem fazer ao reagir ao que um colega de banda está tocando”, disse Mercado.

Segundo Mercado, a novidade está nessa dinâmica de ação e reação em tempo real, e não em um simples canto em coro ou em uma performance mais alta.

Não há relato de outro mamífero, além dos humanos, que apresente modulação de altura durante o canto, no exato momento em que está cantando.

Significado social do canto

Os machos de baleia-jubarte usam o canto principalmente em áreas de reprodução, onde o som de longo alcance ajuda as baleias a localizar e avaliar umas às outras.

“Estudar essas dinâmicas vocais poderia nos ajudar a entender como esses animais misteriosos percebem e exploram seu mundo social”, disse Julia Bruno.

Essa ideia combina com um sistema em que um cantor pode ouvir vizinhos a quilômetros de distância, mesmo quando ninguém consegue vê-los.

Por isso, mudanças de altura podem funcionar menos como uma demonstração de ameaça e mais como uma forma de testar quem está por perto.

Limites à vista

Persistem pontos cegos importantes, porque o estudo captou os cantores por meio de um único gravador fixo, em vez de acompanhar baleias em movimento.

Com apenas um ponto de escuta, não foi possível determinar com precisão a distância entre os cantores, nem saber se o mesmo indivíduo voltou a aparecer duas vezes.

Além disso, os autores concentraram as medições mais detalhadas em um tipo de nota repetida, o que significa que outros elementos do canto podem se comportar de maneira diferente.

Essas limitações deixam claro que o artigo mostra o que as jubartes são capazes de fazer - e ainda não o que elas fazem na maioria das vezes.

Testando interações entre baleias

Trabalhos futuros vão precisar de etiquetas (tags), múltiplos gravadores ou playbacks cuidadosamente controlados para revelar qual baleia mudou primeiro e por quê.

Com essas ferramentas, os cientistas poderiam relacionar mudanças de altura à distância, ao movimento, ao cortejo ou a pausas que parecem triviais em uma gravação isolada.

Mercado descreveu o estudo como um começo, não um desfecho, porque agora o comportamento precisa ser acompanhado em encontros reais.

É por isso que o resultado importa além de uma observação engenhosa: ele transforma o canto das baleias em um comportamento que pode ser testado.

Repensando o canto das baleias

O canto das jubartes passa a parecer menos uma transmissão fixa e mais uma troca flexível, moldada pela presença de outra voz na água.

Se pesquisas posteriores confirmarem esse padrão em diferentes locais e temporadas, os cientistas talvez tenham de repensar por que os machos cantam.

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