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Mosquitos e DEET: como eles podem passar a gostar do repelente

Mão com gotas de líquido e mosquito pousado, com frascos e placa de petri ao fundo em laboratório.

O mais irritante é que isso é totalmente culpa nossa: a gente não sabe usar direito, e eles acabam se adaptando - até passar a gostar.

É uma notícia e tanto para ler neste começo de verão de 2026, quando os mosquitos já tomam conta de varandas e jardins. Além de estarem sendo empurrados para latitudes mais ao norte pelo aquecimento global, agora eles conseguem virar nossa melhor arma contra nós. De acordo com um estudo publicado em 28 de maio na revista Journal of Experimental Biology, esses insetos são capazes de “apreciar” o DEET e, em determinadas condições, até serem atraídos por ele.

DEET: a arma mais usada contra mosquitos

O DEET (N,N-diethyl-m-toluamide) é o composto ativo presente na enorme maioria de sprays, cremes, lenços e pulseiras anti-mosquito vendidos em farmácias e supermercados. Ele foi desenvolvido pelo Exército dos Estados Unidos em 1946 e está no mercado desde 1957, sendo usado por dezenas de milhões de pessoas no mundo.

Na prática, o DEET segue como a substância de referência: quase impossível de tirar do posto, tamanha a sua eficácia - ainda que possa ser tóxico para humanos em doses altas ou quando usado por períodos prolongados. E é justamente por estar em todo lugar, além de ser aplicado de forma quase sempre incorreta, que os mosquitos encontraram, geração após geração, o cenário ideal para aprender a tolerá-lo: um exemplo perfeito (e bem desanimador) de pressão evolutiva.

Como treinamos os mosquitos a nos picar

A pesquisa focou em uma única espécie: a parente tropical do mosquito-tigre, o Aedes aegypti, transmissor de várias doenças. Dengue, Zika, febre amarela, chikungunya: infecções graves que colocam bilhões de pessoas em risco ao redor do planeta.

DEET e Aedes aegypti no teste de condicionamento

Para testar a hipótese, os cientistas recorreram a um protocolo de condicionamento pavloviano. Eles deixaram mosquitos contidos atrás de uma tela, com um braço humano do outro lado - fora do alcance, mas perto o bastante para mantê-los em estado de alerta.

No momento em que os insetos eram atraídos pelo odor associado ao sangue, os pesquisadores liberavam DEET em dose controlada no ambiente. A ideia era “sobrepor” o cheiro do repelente ao da possível presa, fazendo com que os receptores olfativos processassem as duas pistas ao mesmo tempo. O procedimento, repetido quatro vezes, já foi suficiente para produzir um comportamento inesperado em 60% dos mosquitos: mesmo quando o cheiro do sangue não estava mais presente, eles continuavam tentando se alimentar após terem sido expostos apenas ao DEET.

E há um detalhe ainda pior: quando tinham de escolher entre uma mão sem repelente e outra com DEET em concentração normal, os mosquitos condicionados pelo experimento preferiam a mão com DEET.

Clément Vinauger, coautor do estudo e pesquisador associado ao Center for Emerging, Zoonotic, and Arthropod-borne Pathogens do Fralin Life Sciences Institute, afirma: “Até aqui, partíamos do princípio de que os repelentes funcionavam apenas por causa de suas propriedades químicas; seja porque o DEET tem um cheiro insuportável para os mosquitos, o que os faz fugir, seja porque sua química simplesmente impede que eles nos localizem pelo odor […] Mas o que mostramos é que o cérebro do mosquito consegue reprogramar essa reação com base na experiência. O que o inseto aprendeu conta tanto quanto a ação química do produto. Para mim, isso muda completamente o jogo”.

Segundo ele, trata-se de um tipo de aprendizado individual: qualquer mosquito que consiga picar na presença de DEET passa a associar os dois cheiros e sai “treinado” a buscar o odor do repelente, em vez de evitá-lo.

Um mosquito assassino em breve sem fronteiras

Por isso, Vinauger recomenda evitar passar uma grande quantidade de uma vez e, em vez disso, reaplicar o produto com regularidade para manter a proteção no nível máximo. Por enquanto, não há nenhuma molécula capaz de substituir o DEET nas regiões mais afetadas por mosquitos, e seu uso continua sendo indispensável. O que falta aos usuários é reaprender a aplicá-lo corretamente.

O alerta fica ainda mais sério porque a área de distribuição do Aedes aegypti está avançando para novas regiões - e o inseto leva consigo esse perigoso “pacote” de adaptação. Se, no próximo século, essa espécie se tornasse totalmente insensível ao DEET, o número de mortes anuais atribuídas a doenças transmitidas por vetores dispararia, e ela ainda conseguiria ocupar áreas geográficas que antes eram inacessíveis.

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