Cientistas encontraram, no Deserto do Saara, fósseis raros de crânio de Spinosaurus - um dinossauro carnívoro gigantesco - pela primeira vez em mais de 100 anos.
Os ossos pertencem a um tipo recém-identificado de Spinosaurus, com uma crista óssea alta no topo da cabeça, e indicam que ele caçava peixes em rios, em vez de nadar em águas profundas e abertas.
Fragmentos de crânio reaparecem
Imagens de uma escavação no deserto mostram uma mão erguendo lâminas finíssimas de osso do crânio, quase como papel. A partir desse amontoado quebradiço, o dr. Paul Sereno, da Universidade de Chicago, começou a encaixar as partes até reconstruir um rosto.
“É a coisa mais frágil e impossível de encontrar”, disse o dr. Sereno.
A espécie passou a ter um nome formal, Spinosaurus mirabilis, e o crânio agora traz pistas que as descobertas antigas nunca conseguiram oferecer.
Uma crista feita para exibição
Acima do focinho, uma crista em forma de lâmina se elevava o bastante para mudar o contorno do animal contra o céu aberto.
Sulcos no osso indicam que a crista provavelmente era recoberta por queratina - proteína resistente presente em cabelos e unhas -, o que aumentaria seu tamanho.
Por estar posicionada na linha média do crânio, a crista lembra outros padrões de ornamentação que pesquisadores associam a exibições chamativas.
A cor continua desconhecida, mas um traço construído para ser visto sugere um lado social que os fósseis raramente conseguem registrar.
Dentes adaptados para pescar
Ao longo do focinho comprido, dentes que se encaixavam entre si formavam uma barreira capaz de impedir que peixes escorregadios escapassem.
Com cerca de 13 metros de comprimento (43 pés) e aproximadamente 5.900 a 6.800 quilogramas, o predador precisava de alimento em oferta constante.
Quando as mandíbulas se fechavam, os espaços mais largos perto da articulação deixavam passagem para a presa e evitavam que a mordida travasse.
Como os dentes se interligavam em vez de cortar, é provável que peixes e outros animais de rio entrassem no cardápio com mais frequência do que presas terrestres.
Debate sobre a natação
Durante anos, o Spinosaurus ficou no centro de discussões, com alguns especialistas defendendo que ele nadava em águas profundas e outros rejeitando essa ideia.
Estudos sobre a cauda reforçaram o argumento de que o dinossauro conseguiria se impulsionar com força na água, usando movimentos laterais.
Trabalhos posteriores contestaram essa leitura, afirmando que o corpo do animal seria leve demais e instável para atuar como um verdadeiro predador mergulhador.
Achados do Níger, na África Ocidental, ajudam a contextualizar o tema, e uma comparação com 43 predadores favorece a hipótese de um caçador do interior que permanecia perto da superfície.
Rios longe do litoral
Areias e lamas depositadas por rios envolveram os ossos, ligando o animal a um ambiente de margem fluvial, e não a uma costa marinha.
Em vez de sinais de marés, os fósseis ao redor apontam para peixes de água doce e herbívoros que sustentavam uma paisagem exuberante.
A distância do mar é relevante porque ondas podem deslocar ossos, enquanto depósitos no interior preservam uma história mais próxima do local onde o animal viveu.
Encontrado ao lado de dinossauros de pescoço longo, o predador parece ter sido figura constante dos rios - não um patrulheiro de praias.
Adaptação a áreas alagadas
Ao longo de dezenas de milhões de anos, os espinossaurídeos - carnívoros de focinho longo com “velas” nas costas - foram se aproximando cada vez mais da água.
Mandíbulas próprias para capturar peixes surgiram cedo, e linhagens posteriores se espalharam por mares quentes que antes cobriam partes da África e da Europa.
Gigantes como Spinosaurus mirabilis dominavam canais rasos e áreas úmidas por volta de 95 milhões de anos atrás. Depois, a elevação do nível do mar e mudanças climáticas comprimiram esses habitats, e o grupo desapareceu.
Trabalho no deserto continua arriscado
Saindo de Agadez, cidade no norte do Níger, o comboio percorreu cerca de 300 quilômetros (186 milhas) por areia sem trilhas até chegar ao acampamento.
Ao meio-dia, temperaturas próximas de 50 °C (122 °F) e a existência de apenas um caminhão-pipa limitavam o tempo de escavação antes das pausas obrigatórias.
Guardas armados - 64 homens ao todo - acompanharam a equipe para desencorajar saqueadores e proteger os fósseis armazenados.
Três meses seguindo essa rotina renderam só alguns ossos frágeis, o que ajuda a explicar por que esse tipo de trabalho segue sendo incomum.
Um nome com história
Em 1915, fósseis do Egito geraram o holótipo - o exemplar único usado para nomear uma espécie - de Spinosaurus aegyptiacus.
Um estudo recorreu a fotografias para recuperar detalhes depois que os ossos originais foram destruídos. As novas peças de crânio do Níger fornecem pontos de referência que faltavam, de modo que as comparações não dependem mais apenas de esboços de museu.
Com duas espécies agora registradas, cientistas conseguem testar quais características permaneceram estáveis e quais evoluíram de forma isolada.
Fósseis e futuro local
Após o trabalho nos laboratórios da Universidade de Chicago, a equipe planejou devolver os fósseis ao Níger e ajudar a montar museus locais.
Além das vitrines, Sereno descreveu programas de capacitação em que especialistas da Universidade de Chicago auxiliam o Níger a formar sua própria equipe de museu e de campo.
Quando o patrimônio fica no país, a educação muda: estudantes podem ver a história nacional de perto, em vez de apenas ler sobre ela no exterior.
Padrões compartilhados para empréstimos e registros continuam essenciais, já que ossos frágeis podem desaparecer por roubo, danos ou falhas de documentação.
O que esses ossos indicam
As evidências do crânio, a geologia do interior e anos de discussão agora convergem para um Spinosaurus que capturava peixes em águas rasas.
Mais fósseis das mesmas rochas podem revelar como a crista variava entre indivíduos e com que rapidez a elevação do nível do mar levou ao fim do grupo.
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