Fique debaixo de uma árvore grande e antiga numa tarde abafada e dá para perceber algo que muitos planejadores urbanos só agora começam a levar a sério: sombra não é enfeite. Ela tem função.
As árvores baixam a temperatura do quarteirão, retêm a água da chuva antes que ela alague a rua e ajudam a remover poluentes do ar que as pessoas realmente respiram.
Um estudo recente, assinado por mais de 60 cientistas de dezenas de países, argumenta que a maioria das cidades ainda não consegue tratar as árvores como a infraestrutura que, na prática, elas são.
O grupo é liderado por Manuel Esperon-Rodriguez, da Universidade do Oeste de Sydney e da Universidade de Bangor, e tem Mark G. Tjoelker, também da Universidade do Oeste de Sydney, como autor sênior.
Árvores precisam de tempo para crescer
Plantar uma muda pode levar vinte minutos. Já formar um dossel de verdade - aquele que resfria um bairro de forma perceptível - exige décadas.
Por isso, quando uma árvore adulta é derrubada, a cidade não perde apenas “uma árvore”. Some junto o acúmulo de trinta ou quarenta anos de sombra, habitat e armazenamento de carbono, e não existe um jeito rápido de recomprar isso.
Mesmo assim, as árvores continuam perdendo essas disputas. Empreendimentos as removem porque é mais barato e mais rápido, e as punições por corte ilegal muitas vezes são fracas demais para doer.
Nos orçamentos municipais, é comum haver dinheiro para o momento fotogênico do plantio, mas não para os anos de rega, poda e controle de pragas que realmente mantêm a árvore viva.
Os pesquisadores defendem fiscalização mais dura, incentivos fiscais concretos para proprietários que preservem árvores maduras e exigências mínimas de cobertura de copa colocadas em lei, em vez de dependerem de boa vontade.
Eles também sugerem que grandes obras de infraestrutura - aquelas que costumam nivelar tudo pelo caminho - poderiam ser redesenhadas para ampliar o dossel, em vez de apagá-lo.
Nem todo bairro recebe a mesma sombra
Bairros ricos, em praticamente todos os lugares analisados pelos pesquisadores, tendem a ser visivelmente mais arborizados do que os bairros pobres.
Ao mesmo tempo, são as áreas de menor renda que, em geral, enfrentam o pior do calor e o ar mais sujo.
Em outras palavras, as árvores costumam aparecer exatamente onde são menos necessárias.
Reduzir essa diferença exige mais do que uma média municipal que, silenciosamente, esconde os quarteirões mais críticos.
Tornar bairros mais verdes sem expulsar moradores
Os autores defendem metas definidas bairro a bairro.
Eles também querem que quem mora nesses lugares - incluindo comunidades indígenas - participe das decisões sobre o que plantar e onde plantar, em vez de receber uma “solução verde” imposta por um escritório de planejamento.
Há ainda um alerta: plantar muitas árvores sem um plano pode provocar gentrificação verde, elevando aluguéis e expulsando justamente os moradores que deveriam ser beneficiados.
Para os pesquisadores, a única saída real é conectar a política de árvores diretamente à política habitacional, em vez de tratá-las como dois setores separados que nunca conversam.
Árvores quase não aparecem na política climática
Pelo tanto que as árvores entregam, chega a ser estranho como elas mal aparecem em acordos centrais de clima e biodiversidade - aqueles que de fato direcionam recursos e vontade política.
Os autores querem corrigir isso, com florestas urbanas explicitamente incluídas em planos climáticos nacionais, estratégias de biodiversidade e nos compromissos assumidos por países em estruturas como o Acordo de Paris.
O obstáculo continua sendo o dinheiro. Estimativas colocam o custo global de soluções climáticas baseadas na natureza - incluindo florestas urbanas - em bem mais de $500 bilhões por ano.
Grande parte do financiamento atual paga o instante do plantio e para ali mesmo, deixando sem recursos - e frequentemente esquecidas - as décadas de manutenção que, na prática, determinam se a árvore vai sobreviver.
O estudo aponta instrumentos mais recentes, como títulos verdes, créditos de biodiversidade e programas de monitoramento como Cidades Árvores do Mundo, como caminhos para começar a fechar essa lacuna, em vez de continuar tratando árvores como um gasto único.
Muitas cidades falham em registrar suas árvores
Talvez a descoberta mais inesperada não seja política, e sim operacional. Muitas cidades simplesmente não mantêm bons registros sobre as próprias árvores.
Ninguém acompanha quais mudas recém-plantadas atravessam os primeiros verões, quais espécies estão em pior condição ou quão desigual é a distribuição de dossel pela cidade.
Sem esses dados, as cidades ficam, essencialmente, no chute sobre se suas políticas de arborização funcionam.
Os cientistas defendem ferramentas mais baratas e mais precisas - imagens de satélite e monitoramento com apoio de IA - para reduzir esse vazio de informação, especialmente em cidades com menos recursos.
Árvores de cidade devem ser diversificadas
O grupo também chama atenção para um risco mais discreto: repetir as mesmas poucas espécies rua após rua. A paisagem pode parecer organizada, mas o sistema fica frágil.
Uma praga ou doença que chegue na hora certa pode eliminar o dossel de uma cidade inteira em um único surto.
Em vez disso, os pesquisadores argumentam que as cidades precisam diversificar suas populações de árvores. Espécies não nativas podem entrar quando forem adequadas a um futuro mais quente e mais seco.
Ao mesmo tempo, as cidades devem continuar priorizando árvores nativas, respeitando o contexto ecológico e cultural de cada lugar.
Um problema urgente
As árvores de uma cidade não são algo “bom de ter” para ser financiado só depois que as prioridades “reais” estiverem pagas.
Elas já exercem funções de política de saúde pública, defesa climática e justiça entre bairros, independentemente de alguém estar financiando isso nesses termos.
Os autores não tratam o tema como algo distante. As cidades seguem crescendo e as ondas de calor seguem piorando.
Assim, as decisões tomadas agora - sobre quais árvores permanecerão de pé e quais bairros continuarão com sombra - vão definir, de forma silenciosa, o quão vivíveis essas cidades serão por décadas, muito depois de as pessoas que decidiram isso terem ido embora.
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