A maioria das aranhas oferece pouquíssimo risco às pessoas - inclusive a famosa falsa-viúva-nobre (Steatoda nobilis).
Um predador pequeno com presa grande
Ainda assim, esse predador de cerca de 1,3 cm costuma surpreender pelo que consegue capturar. Um estudo de 2023, por exemplo, sugere que a falsa-viúva-nobre pode predar vertebrados com certa regularidade, com vítimas já conhecidas incluindo lagartos, morcegos e, agora, musaranhos.
Os autores do estudo registraram o caso mais recente numa cena macabra do lado de fora da janela de um quarto no sul da Inglaterra: uma fêmea de falsa-viúva-nobre imobilizou e consumiu um musaranho-pigmeu (Sorex minutus).
Apesar do nome, o musaranho-pigmeu é enorme se comparado à aranha. Em geral, mede cerca de 5 cm de comprimento, além de uma cauda de aproximadamente 4 cm.
Ele tem mais de três vezes o comprimento da falsa-viúva-nobre, que mede por volta de 1,4 cm (desconsiderando as patas), e pesa algo como 10 vezes mais.
Vertebrados costumam aparecer na dieta de aranhas maiores - incluindo representantes da família das tarântulas -, mas eles são um desafio diferente para aranhas pequenas como a falsa-viúva-nobre, que não consegue dominar répteis ou mamíferos como uma tarântula poderia.
Por isso, assim como as viúvas-verdadeiras (incluindo a temida viúva-negra e a aranha-redback), a falsa-viúva-nobre lida com presas desproporcionais combinando veneno potente e seda resistente.
O caso em Chichester: o musaranho-pigmeu na teia
Foi o que ocorreu numa casa na cidade de Chichester, no sul da Inglaterra, onde a zoóloga Dawn Sturgess, da Universidade de Galway, registrou o vídeo impressionante abaixo.
As imagens mostram a teia de uma falsa-viúva-nobre, montada do lado de fora da janela do quarto da residência em Chichester, com um pequeno mamífero preso nos fios. Mais tarde, a análise dos restos do animal permitiu aos pesquisadores identificá-lo como um musaranho-pigmeu.
Segundo o relato, o musaranho ainda estava vivo na teia, embora só tenha sido visto fazendo alguns movimentos discretos perto do começo do que estava acontecendo. Isso provavelmente se deve ao veneno neurotóxico da aranha, conhecido por provocar paralisia neuromuscular rápida.
Os pesquisadores observaram a aranha indo e voltando entre o musaranho e as vigas acima da janela, usando seda para içar a presa para cima cerca de 25 cm.
Após 20 minutos, a aranha já havia erguido o animal até as vigas, ficando parcialmente fora do campo de visão. Ela envolveu o musaranho em seda, alimentou-se dele por três dias e depois deixou cair para fora da teia o que restou.
De acordo com os pesquisadores, "os restos do musaranho não eram nada além de pelo, ossos e pele".
Não está claro como a aranha capturou o musaranho inicialmente, mas é bem possível que isso não tenha sido um acaso.
Este é o terceiro relato, em cinco anos, de uma falsa-viúva-nobre capturando um vertebrado - e os métodos observados apontam para adaptações associadas à "predação habitual de vertebrados", como os autores explicaram no estudo.
"Esta observação demonstra ainda mais que a falsa-viúva-nobre é perfeitamente adaptada para derrubar presas grandes, combinando veneno potente, seda extremamente forte e comportamento de caça complexo", afirmou o autor principal Michel Dugon, zoólogo da Universidade de Galway.
Os pesquisadores escrevem que o musaranho provavelmente subiu em um arbusto de glicínia próximo à janela do quarto; ali, a aranha o teria prendido com seda, paralisado com veneno e, em seguida, içado até as vigas.
Importância do registro e contexto da espécie invasora
Os autores observam que esta é a primeira vez que qualquer integrante da família Theridiidae foi registrado predando um musaranho na Irlanda ou na Grã-Bretanha.
Também é a primeira vez que se relata, em qualquer lugar do mundo, uma espécie de falsa-viúva predando um musaranho.
A falsa-viúva-nobre é nativa da Madeira e das Ilhas Canárias, mas ao longo do último século tornou-se uma espécie invasora em diversas outras partes do mundo - talvez com mais notoriedade no Reino Unido, onde reportagens sensacionalistas de tabloides a retrataram de forma enganosa como uma ameaça mortal.
Embora a falsa-viúva-nobre possa dar uma mordida dolorosa e possa inocular bactérias patogênicas junto com seu veneno neurotóxico, ela não é agressiva nem letal para humanos e representa um risco menor à saúde pública do que algumas matérias sugerem.
Ainda assim, por ser uma espécie invasora que pode causar problemas para pessoas e para a vida silvestre, faz sentido lançar mais luz sobre esse aracnídeo notável.
"A falsa-viúva-nobre é uma aranha muito intrigante, e ainda temos muito a aprender sobre ela", disse o autor sênior John Dunbar, zoólogo da Universidade de Galway.
"Somos muito gratos aos membros do público que compartilham suas observações conosco. Isso nos permite entender melhor como essa espécie invasora pode nos impactar e ao nosso ambiente."
O estudo foi publicado em Ecosphere.
Uma versão anterior deste artigo foi publicada em março de 2023.
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