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Swiss Ornithological Institute revela como pequenas aves sobrevivem a um voo de 1.931 km sobre deserto e mar

Pássaro voando sobre dunas de areia com barraca e mar ao fundo em dia ensolarado.

Como uma ave tão pequena consegue sobreviver a um voo ininterrupto de 1.931 km sobre um deserto - ou a centenas de quilômetros por cima do mar aberto?

Um estudo recente do Swiss Ornithological Institute indica que esses viajantes minúsculos recorrem a estratégias de voo eficientes e flexíveis. Em vez de manterem a mesma rota vertical, as aves ajustam a altitude de acordo com o ambiente atravessado.

O trabalho também mostra que características físicas - como formato e estrutura das asas e até a cor das penas - ajudam a determinar qual é a melhor “linha” a seguir no céu.

Rastreamento de aves em travessias de barreiras

Para entender como as aves lidam com trechos extremos, os investigadores equiparam mais de 300 indivíduos com pequenos registradores multissensores. Esses aparelhos mediram luz, pressão do ar, temperatura e movimento. Depois, os cientistas conseguiram recuperar 67 dispositivos, provenientes de 17 espécies diferentes.

As rotas analisadas ligavam a Europa à África subsaariana. Ao longo desse deslocamento, as aves são obrigadas a enfrentar grandes barreiras ecológicas - locais onde quase não há alimento, não existem pontos seguros para pouso ou as condições meteorológicas são severas.

Neste estudo, as principais barreiras avaliadas foram o Deserto do Saara, o Mar Mediterrâneo e o Golfo da Biscaia.

No total, o conjunto de dados reuniu mais de 300 travessias pelo deserto e mais de 40 travessias pelo mar. Com essa amostra ampla, foi possível comparar espécies e estilos de voo diferentes.

As aves mudam de altitude durante a migração

Ao cruzarem o Saara, a altura do voo frequentemente variava entre noite e dia. Durante a noite, a altitude média ficou em torno de 1,600 metros acima do nível do mar. Já quando voavam de dia, elas subiam consideravelmente, chegando a uma média próxima de 2,800 metros.

Algumas espécies foram além desse padrão e atingiram alturas ainda mais extremas: em certos casos, indivíduos passaram de 4,000 metros durante o dia - níveis comparáveis aos de picos montanhosos.

“Essas pequenas aves voam quase exclusivamente à noite, mas às vezes estendem seus voos noturnos para o dia seguinte quando atravessam o deserto”, acrescentou Jocelyn Champagnon, pesquisador sénior da Tour du Valat e coautor do estudo.

“Quando o sol nasce, descobrimos que elas voam mais alto. Esse comportamento provavelmente as ajuda a evitar o superaquecimento ao alcançar ar mais frio em altitudes maiores. Por outro lado, ao cruzar os mares, elas descem, o que as coloca em risco de colidir com futuros empreendimentos eólicos em alto-mar.”

Voar alto sobre o Saara

No deserto, o ar quente e a radiação solar intensa podem levar rapidamente ao superaquecimento. Ao subir em direção a camadas mais frias da atmosfera, as aves diminuem a probabilidade de sofrer stress térmico.

O artigo também menciona resultados de pesquisas anteriores sugerindo que o aquecimento solar ao longo do dia pode “empurrar” as aves para altitudes maiores como forma de manter o corpo mais fresco.

Ainda assim, nem todas as espécies responderam do mesmo modo. Algumas, como a felosa-orfeu-ocidental, não prolongaram o voo até o período diurno e, ao que tudo indica, preferiram parar para descansar.

Outras, como o chasco-do-norte e o petinha-marmelada, exibiram padrões distintos, variando o comportamento conforme as condições.

Anatomia das aves e mudanças de altitude

O estudo examinou de perto traços anatómicos relevantes para o voo. Os cientistas compararam a razão de aspecto das asas, a área da porção distal da asa (a “mão”), o comprimento dos ossos da asa e a luminosidade da plumagem.

Uma tendência clara apareceu nas travessias do deserto: aves com maior área de asa voaram mais alto. As asas maiores geram mais sustentação, o que facilita manter o voo em altitudes elevadas, onde o ar é mais rarefeito.

A coloração das penas também teve influência. Em geral, espécies mais escuras subiram mais durante as travessias diurnas do Saara. Como penas escuras absorvem mais luz solar, ganhar altitude e alcançar ar mais frio pode ser uma forma de limitar o superaquecimento.

Estrutura das asas das aves

A estrutura interna da asa igualmente contou. Espécies com ossos de asa relativamente mais curtos foram as que, durante o dia, tenderam a voar mais alto.

Segundo a explicação do estudo, ossos mais longos podem favorecer a dissipação de calor por oferecerem uma superfície vascularizada maior. Assim, aves com ossos mais curtos talvez precisem compensar subindo mais, para se resfriarem.

Em conjunto, esses achados reforçam que a estratégia de voo está estreitamente ligada ao “desenho” do corpo. A evolução pode ter moldado asas e penas, ao menos em parte, para permitir a sobrevivência em migrações extremas.

Voos baixos sobre o mar

Quando a barreira era o mar, o padrão mudava. Sobre a água, as aves normalmente mantinham altitudes menores. A média ficou em cerca de 770 metros, e quase metade das travessias marítimas ocorreu abaixo de 500 metros.

O chasco-do-norte, em particular, chegou a voar muito perto da superfície. Na maior parte de suas travessias, os indivíduos passaram longos períodos abaixo de 50 metros.

Os cientistas consideram que voar rente ao mar pode reduzir o custo energético. As aves podem aproveitar ventos mais suaves junto à superfície ou beneficiar-se do efeito solo, que diminui a resistência do ar. Ainda assim, os autores salientam que são necessários mais dados para confirmar essa hipótese.

O estudo também observou que o formato das asas e a cor da plumagem influenciaram a altura sobre o mar. Aves com asas maiores e maior razão de aspecto tendiam a voar mais alto; e, novamente, espécies mais escuras mostraram propensão a altitudes superiores em comparação com espécies mais claras.

Por que esta pesquisa é importante

Migrar envolve riscos. Todos os anos, biliões de aves se deslocam entre a Europa e a África. Em desertos e mares, não há locais seguros para parar e recuperar energia. Por isso, compreender como essas aves administram calor, gasto energético e altitude é crucial para orientar medidas de proteção.

Os resultados também têm implicações para o planeamento de energia eólica. Como muitas aves cruzam o mar em baixa altitude, turbinas eólicas em alto-mar podem aumentar o risco de colisões - sobretudo quando há descidas durante o dia.

A pesquisa deixa claro que a migração não se resume a percorrer grandes distâncias: ela depende de decisões inteligentes no ar. Formato das asas, estrutura óssea e cor das penas contribuem para que essas aves enfrentem uma das viagens mais difíceis do planeta.

Os projetos Migralion e Migratlane, financiados pelo Office Français de la Biodiversité, deram suporte a este trabalho. Esses programas procuram ampliar o conhecimento sobre os deslocamentos das aves em áreas como o Mediterrâneo e o Golfo da Biscaia.

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