Nas trevas absolutas sob o Oceano Atlântico Sul, ao largo da costa da Argentina, existe um cenário quase mágico escondido do olhar humano.
É um território de mar profundo onde caranguejos se deslocam pelo fundo e estrelas-do-mar de braços finos se espalham pelo relevo; onde águas-vivas etéreas ondulam suavemente ao ritmo das correntes; onde peixes difíceis de ver e polvos curiosos surgem e desaparecem - e, sobretudo, onde o coral domina a paisagem.
O recife de Bathelia candida no mar profundo argentino
Entre esses corais, um tipo raro e pouco observado de água fria, o Bathelia candida, forma estruturas extensas que, mesmo na escuridão, funcionam como refúgio para ecossistemas inteiros.
O cenário recém-identificado abriga o maior recife de Bathelia candida já registrado: ele ocupa cerca de 0,4 quilômetros quadrados (0,15 milhas quadradas) - quase a área da Cidade do Vaticano.
"Eu diria que é um dos ambientes mais vibrantes e exuberantes do mar profundo que já vi", disse ao Mongabay o biólogo de mar profundo Santiago Herrera, da Universidade de Lehigh, nos EUA.
"Quando descemos ao fundo, sabemos que o alimento se torna cada vez mais escasso e, portanto, a vida também se torna cada vez mais escassa. Por isso é uma grande surpresa quando, de repente, você encontra grandes quantidades de animais todos juntos, claramente interagindo em um ecossistema muito vibrante e dinâmico."
Por que o fundo do oceano ainda é um desconhecido
O leito dos oceanos da Terra é famoso justamente pelo quanto ainda ignoramos sobre ele.
A luz do Sol só consegue avançar até certo ponto: seus fótons se dispersam e são absorvidos à medida que atravessam a água.
Abaixo de determinada profundidade, a escuridão é permanente e o frio também; as águas não são iluminadas nem aquecidas pelo Sol, e a pressão é esmagadora por causa do peso de toda a coluna d’água acima.
Foi apenas nas últimas décadas, com apoio de tecnologia, que cientistas passaram a conseguir enxergar dentro desse breu e observar o que vive ali.
O que aparece, porém, é uma biosfera mais ativa do que se imaginava.
A fotossíntese - base da maioria das cadeias alimentares em terra - não ocorre em ambientes tão isolados da luz; ainda assim, existem “oásis” em torno dos quais a vida se concentra, e alguns deles dependem de quimiossíntese, isto é, do aproveitamento de energia química para sobreviver.
Alguns desses oásis são fontes hidrotermais, onde calor e substâncias químicas entram na água por fendas vulcânicas no fundo do mar. Outros são exsudações frias, em que metano e outros compostos vazam para o oceano a partir de reservatórios sob o assoalho marinho.
Pesquisadores a bordo do navio de pesquisa (RV) Falkor (too), do Instituto Oceanográfico Schmidt, procuravam exsudações frias com o veículo operado remotamente (ROV) SuBastian quando se depararam com esse impressionante reino de coral.
"Não esperávamos ver esse nível de biodiversidade no mar profundo argentino e estamos muito animados ao ver tudo isso repleto de vida", afirmou a cientista marinha María Emilia Bravo, da Universidade de Buenos Aires e do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas da Argentina (CONICET).
"Ver toda a biodiversidade, as funções do ecossistema e a conectividade acontecendo ao mesmo tempo foi incrível. Abrimos uma janela para a biodiversidade do nosso país e descobrimos que ainda existem muitas outras janelas a serem abertas."
Como corais de profundidade constroem recifes sem luz
Corais que vivem em águas rasas mantêm relações simbióticas com algas fotossintéticas, das quais dependem para obter energia.
Os cientistas sabem há mais de 250 anos que existem corais de mar profundo; por muito tempo, porém, essas espécies foram tratadas como curiosidades isoladas, sobrevivendo com dificuldade em condições muito diferentes das de seus parentes que vivem na luz.
Só nas últimas décadas ficou claro que algumas espécies conseguem erguer recifes enormes na escuridão permanente do oceano profundo, alimentando-se diretamente de “neve marinha” e de outros fragmentos capturados na coluna d’água - matéria orgânica que “chove” das incontáveis formas de vida que prosperam acima.
E esses recifes de coral acabam atraindo ainda mais organismos - um terceiro tipo de oásis no mar profundo.
As espécies registradas no recife recém-descoberto de Bathelia candida indicam um ecossistema em plena atividade.
Estrelas-cesto, com braços ramificados em várias frondes, foram filmadas enquanto se alimentavam de neve marinha de modo semelhante ao coral. Caranguejos, polvos e peixes também aproveitavam essa oferta de alimento. O recife fica abaixo de uma das regiões de pesca mais produtivas da Argentina, o que pode contribuir para sustentar a abundância de vida nas profundezas.
De forma intrigante, esse recife não estava longe de uma exsudação fria ativa, que abriga seu próprio ecossistema, incluindo uma grande área com moluscos quimiossintéticos.
A possível relação entre exsudações frias e recifes de corais de mar profundo - caso exista - ainda não é bem compreendida; por isso, não se sabe se os dois habitats estão conectados.
Outras descobertas: queda de baleia e água-viva fantasma gigante
Durante a expedição, que mapeou um trecho do fundo oceânico com cerca de 900 quilômetros (560 milhas) de extensão, os pesquisadores registraram mais um oásis: uma queda de baleia, isto é, a carcaça de um dos maiores animais do oceano, capaz de sustentar por anos organismos que se alimentam dela e microrganismos.
É a primeira queda de baleia em águas profundas já documentada em águas argentinas.
Ela está a 3.890 metros de profundidade e consiste em pouco mais do que ossos, que agora servem de habitat para outros organismos. Isso indica que ela pode estar ali há décadas.
A expedição também registrou imagens da água-viva fantasma gigante (Stygiomedusa gigantea), uma das maiores e menos observadas águas-vivas do planeta, acrescentando mais um habitante incomum ao conjunto de espécies do mar profundo.
Esses animais enigmáticos podem ultrapassar 10 metros de comprimento, mas, por viverem em grande profundidade, raramente são vistos - há menos de 120 avistamentos registrados.
Essas descobertas provavelmente são apenas o começo.
Entre as amostras obtidas na expedição, havia 28 espécies que os pesquisadores suspeitam ser novas para a ciência, coletadas em diversos bancos de coral ao longo da área examinada.
Esses exemplares ainda estão em análise, o que significa que o estranho mundo do Atlântico Sul, bem abaixo da superfície, guarda muitos outros maravilhas a revelar.
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