Grandes “rios” de urina de baleia têm um papel surpreendente no ciclo de nutrientes do planeta, mostra um estudo recente.
Até aqui, a atenção costumava ficar no que alguns pesquisadores chamam de “tsunamis de cocô”: a forma como as fezes dessas gigantes ajudam a mover nutrientes na vertical, da superfície para camadas mais profundas do oceano. Agora, cientistas também estimaram em que escala esses animais redistribuem nutrientes na horizontal, ao longo de vastas distâncias.
Migrações e a “esteira transportadora das grandes baleias”
Baleias de barbas fazem algumas das migrações anuais mais longas do mundo animal. As jubartes (Megaptera novaeangliae), por exemplo, podem percorrer até 8.300 km (cerca de 5.150 milhas), saindo da Antártida rumo a áreas de invernada mais quentes. Nesse deslocamento, elas levam recursos de regiões polares ricas em nutrientes para zonas oceânicas mais quentes e relativamente menos abastecidas.
O mais impressionante é que uma parcela enorme dessa redistribuição vem da urina. Quando as baleias urinam, elas espalham nitrogênio e outros elementos essenciais pela água do mar.
“Chamamos isso de ‘esteira transportadora das grandes baleias’”, explica o primeiro autor do estudo, o biólogo conservacionista Joe Roman, da Universidade de Vermont, nos EUA. “Também dá para pensar como um funil, porque as baleias se alimentam em áreas muito amplas, mas precisam ficar em um espaço relativamente restrito para encontrar parceiro, reproduzir e dar à luz.”
Reprodução em áreas rasas e concentração de nutrientes
Cientistas suspeitam que mães e filhotes permaneçam perto de águas rasas e arenosas porque esse ambiente ajudaria a abafar a comunicação constante entre eles.
“As mães e os recém-nascidos chamam o tempo todo”, diz Roman. “Eles não querem que predadores, como orcas, ou machos reprodutores de jubarte, percebam isso.”
Na prática, isso significa que nutrientes reunidos pelas fêmeas - enquanto elas filtram nuvens de krill e pequenos peixes durante incursões de alimentação espalhadas no verão - acabam se concentrando em uma área bem menor quando elas migram para parir no inverno.
Um exemplo: jubartes que se alimentam ao longo do Golfo do Alasca passam o inverno nas faixas muito mais reduzidas da costa do Havaí. Somando excretas, pele que se desprende e até carcaças, elas levam para ali aproximadamente o dobro dos nutrientes que as forças naturais locais fornecem.
“Nutrientes estão chegando de fora - e não por um rio, mas por esses animais migratórios”, explica o oceanógrafo Andrew Pershing, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca. “É muito legal e muda a forma como pensamos os ecossistemas no oceano. A gente não costuma imaginar animais, além dos humanos, tendo impacto em escala planetária, mas as baleias realmente têm.”
Quanto nitrogênio e biomassa as baleias deslocam
Roman e colegas estimaram que, juntas, apenas algumas espécies migratórias de baleias de barbas - a baleia-cinzenta (Eschrichtius robustus), a jubarte e as três espécies de baleias-francas (Eubalaena spp.) - movimentam cerca de 3,800 tons de nitrogênio e 46,000 tons de biomassa por ano.
Com isso, essas baleias funcionam como fertilizadoras de ecossistemas costeiros altamente produtivos, incluindo nossos impressionantes recifes de coral.
“Por causa do tamanho, as baleias conseguem fazer coisas que nenhum outro animal faz. Elas vivem em outra escala”, afirma Pershing.
Os autores destacam que essas estimativas nem sequer consideram outras baleias migratórias de barbas, como as baleias-comuns, ou mesmo a maior mamífera viva, a baleia-azul (Balaenoptera musculus). Em muitos casos, ainda faltam dados sobre seus padrões migratórios.
Ainda assim, fica claro que, somando a “bomba” de nutrientes associada às fezes e a “esteira” ligada às migrações, esses mamíferos majestosos têm um peso enorme na formação e manutenção dos “jardins” do oceano.
“É provável que a quantidade de nutrientes transportada tenha sido, no mínimo, três vezes maior antes da caça comercial às baleias”, escrevem os pesquisadores no artigo.
Desde a década de 1970, ações de conservação ajudaram algumas populações a se recuperar, como as jubartes do leste da Austrália. Mesmo assim, a maior parte das populações de baleias no mundo continua reduzida, enquanto essas gigantes dóceis ainda enfrentam várias ameaças causadas por atividades humanas. Entre elas estão colisões com embarcações, emalhe em redes de pesca, poluição sonora, poluição plástica, mudanças climáticas e a continuidade da caça.
Estratégias como criar áreas de proteção marinha - com redução de ruído e limites de velocidade para embarcações em locais de concentração de baleias - já mostraram resultados promissores. Se conseguirmos aumentar os números desses animais, eles podem seguir mantendo os ecossistemas oceânicos saudáveis e também ajudar a mitigar a bagunça espetacular que provocamos com as mudanças climáticas.
“Os animais desempenham um papel importante no deslocamento de nutrientes”, conclui Roman. “Aves marinhas transportam nitrogênio e fósforo do oceano para a terra em suas fezes, aumentando a densidade de plantas nas ilhas. Os animais formam o sistema circulatório do planeta - e as baleias são o exemplo extremo.”
Esta pesquisa foi publicada na Nature Communications.
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