Assim como um sorriso contagiante ou um bocejo que se espalha, urinar pode ser um comportamento socialmente contagioso - pouco percebido e, possivelmente, bastante comum entre primatas.
Um estudo com 20 chimpanzés (Pan troglodytes) mantidos em cativeiro mostrou agora que, quando um indivíduo esvazia a bexiga, outros tendem a fazer o mesmo pouco depois - sobretudo se o chimpanzé que está urinando for um líder do grupo e estiver a uma distância de um braço.
Pela primeira vez, cientistas quantificaram as dimensões sociais da micção, e os resultados indicam que fazer xixi de forma sincronizada pode afetar a coesão da comunidade, de modo semelhante ao que acontece com a higiene social (grooming) ou com a brincadeira quando esses comportamentos “pegam”.
Isso também aparece na nossa espécie: é comum pessoas irem ao banheiro em grupo. Mesmo sem prestar muita atenção, tomamos decisões todos os dias sobre quando é socialmente adequado e fisicamente seguro ir fazer xixi.
"Um provérbio italiano diz: 'Whoever doesn't pee in company is either a thief or a spy', enquanto em japonês o ato de urinar com outras pessoas é chamado de 'Tsureshon'", afirma a primatóloga Ena Onishi, da Universidade de Kyoto.
"Nossa pesquisa sugere que esse fenômeno pode ter raízes evolutivas profundas. Descobrimos que os chimpanzés, nossos parentes mais próximos, tendem a urinar em resposta à micção de indivíduos próximos."
A investigação ocorreu no Santuário de Kumamoto, no Japão, com quatro grupos de chimpanzés, somando 16 machos e 4 fêmeas.
Ao acompanhar os animais por um total de 604 horas, a equipe da Universidade de Kyoto estimou quantas micções foram sincronizadas, contabilizando todas as vezes em que ocorreram urinadas com até 60 segundos de diferença entre si.
Depois, Onishi e colegas buscaram entender por que os chimpanzés estavam fazendo xixi em horários parecidos, em vez de isso acontecer ao acaso. Talvez, por exemplo, houvesse relação com o momento em que eram alimentados ou liberados para a área externa.
Os pesquisadores observaram que, quando os chimpanzés estavam fisicamente mais próximos - a até 3 metros -, aumentava a probabilidade de um seguir a urinação do outro.
Proximidade entre chimpanzés e o “contágio” de urinar
Esse padrão reforça a ideia de uma micção socialmente contagiosa. Ainda assim, restavam dúvidas importantes. Por exemplo: as relações sociais entre os chimpanzés influenciavam a decisão de urinar?
Os autores verificaram que indivíduos que se limpavam (grooming) com mais frequência não tinham maior chance de urinar juntos. Porém, de forma inesperada, quando um chimpanzé com posição mais alta na hierarquia de dominância começava a urinar, aqueles de status inferior tinham mais probabilidade de acompanhar.
"Ficamos surpresos ao descobrir que o padrão de contágio era influenciado pela posição social", explica Onishi.
"Como não havia estudos anteriores sobre urinação contagiosa em nenhuma espécie, traçamos paralelos com o bocejo contagioso, outro comportamento fisiológico semi-voluntário. Com base nisso, inicialmente esperávamos que quaisquer influências sociais se parecessem com as observadas no bocejo - como um contágio mais forte entre pares socialmente próximos. No entanto, nossos resultados não mostraram evidências de efeitos ligados à proximidade social. Em vez disso, observamos uma influência clara da posição social, com indivíduos de ranking mais baixo sendo mais propensos a seguir a urinação de outros."
O papel da hierarquia social na micção sincronizada em chimpanzés
Em um artigo de 2020, alguns pesquisadores apontaram que se dá pouca atenção à forma como o ambiente social influencia a urinação em humanos e outros animais - apesar dos papéis relevantes que esse comportamento pode ter para a higiene e para a coesão de uma comunidade.
"This was an unexpected and fascinating result, as it opens up multiple possibilities for interpretation," diz o primatólogo Shinya Yamamoto, da Universidade de Kyoto.
"For instance, it could reflect hidden leadership in synchronizing group activities, the reinforcement of social bonds, or attention bias among lower-ranking individuals. These findings raise intriguing questions about the social functions of this behavior."
O estudo foi publicado na revista Current Biology.
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