Aranhas, escorpiões, opiliões e uma infinidade de insetos mantêm os ecossistemas funcionando de forma silenciosa. Só que uma nova análise indica que mal sabemos como a maioria dessas espécies está se saindo.
O mais chocante não é um colapso repentino registrado em vídeo. É o tamanho do território que simplesmente não foi avaliado.
Ecólogos da University of Massachusetts Amherst vasculharam registros de avaliações de conservação de insetos e aracnídeos em toda a América do Norte, ao norte do México. Em vez de encontrar um retrato nítido, depararam-se com enormes áreas em branco.
O estudo defende que, se a intenção é proteger de verdade os sistemas vivos que nos sustentam, insetos e aracnídeos precisam receber muito mais atenção.
Por que as criaturas “assustadoras” importam
No dia a dia, aracnídeos costumam ser tratados como vilões - e com muitos insetos acontece o mesmo. São fáceis de temer e ainda mais fáceis de ignorar. Do ponto de vista ecológico, porém, eles realizam funções que nenhum outro grupo consegue substituir nessa escala.
“Os insetos e os aracnídeos são fundamentais para a sociedade humana”, disse a autora sênior Laura Figueroa, professora assistente de conservação ambiental na UMass Amherst.
“Eles ajudam na polinização e no controle biológico de pragas; podem servir como monitores da qualidade do ar e da água, e se enraizaram profundamente em muitas culturas ao redor do mundo.”
Figueroa também chama atenção para um desequilíbrio básico na forma como pensamos a natureza. O público - e muitos sistemas de conservação - tende a se mobilizar por animais conhecidos e fotogênicos.
Com isso, as espécies menores, mais estranhas e menos queridas ficam em segundo plano, mesmo quando são elas que fazem grande parte do trabalho.
“Muitas pessoas se importam com animais populares e carismáticos no planeta, como leões e pandas, que, com justiça, receberam atenção internacional em conservação. Como os insetos e os aracnídeos normalmente não recebem a mesma atenção, queríamos saber como eles estavam”, observou Figueroa.
O enorme ponto cego da conservação
Para chegar a essa resposta, Figueroa e seu aluno de pós-graduação, Wes Walsh, reuniram avaliações de conservação referentes a 99.312 espécies conhecidas de insetos e aracnídeos na América do Norte, ao norte do México.
A ideia era compilar o que agências e organizações já registram sobre o status das espécies e, então, enxergar onde estão as lacunas. O resultado se pareceu menos com um mapa e mais com um nevoeiro.
“Quase 88,5 a 90 por cento – para ser preciso – das espécies de insetos e aracnídeos não têm status de conservação”, disse Figueroa.
“Nós simplesmente não fazemos ideia de como elas estão. Quase nada é conhecido sobre as necessidades de conservação da maioria dos insetos e aracnídeos na América do Norte.”
Esse número não indica apenas que algumas espécies passam despercebidas. Ele sugere que a maioria, na prática, fica invisível para os sistemas formais de conservação.
Sem um status, fica mais difícil justificar proteção. E também fica mais difícil perceber quedas logo no início, quando ainda dá tempo de agir.
A conservação de insetos não é equilibrada
Mesmo dentro do conjunto limitado de dados existentes, os pesquisadores identificaram padrões. Certos grupos recebem mais atenção porque são úteis para monitorar a saúde ambiental.
Insetos aquáticos, por exemplo, podem sinalizar rapidamente mudanças na qualidade da água. Isso os torna valiosos para órgãos que acompanham riachos e rios.
Mas esse foco não se distribui de maneira uniforme. A equipe constatou que alguns grupos de insetos mais conhecidos e visualmente atraentes acabam recebendo uma proteção desproporcional em relação ao restante do mundo dos insetos.
Enquanto isso, os aracnídeos parecem cair num buraco ainda mais fundo. Em muitos lugares, eles raramente entram como prioridades de conservação, apesar de poderem ser predadores importantes nas teias alimentares e influenciar populações de insetos.
“Os aracnídeos, em particular, estão realmente ausentes da conservação; a maioria dos estados nem sequer protege uma única espécie”, disse Walsh.
Esse é um tipo de problema de conservação diferente daquele que as pessoas costumam imaginar. Não se trata apenas de perda de habitat ou de mudança climática - embora essas pressões continuem relevantes. Trata-se também de atenção. Se um grupo quase nunca é avaliado, ele dificilmente vira prioridade, por mais essencial que seja.
A política por trás da proteção de espécies
A equipe também comparou os padrões de conservação com tendências mais amplas em nível estadual. Eles encontraram uma relação entre o perfil econômico de um estado e suas proteções para insetos e aracnídeos.
Estados que dependem fortemente de setores extrativistas - como mineração, extração em pedreiras e extração de petróleo e gás - tiveram menor probabilidade de proteger insetos ou aracnídeos.
Em contrapartida, estados com atitudes públicas mais ecocêntricas tenderam a proteger mais espécies.
O estudo não afirma haver uma causa única e simples. Ainda assim, o padrão sugere que a conservação não acontece no vácuo: ela é moldada por política, valores públicos e pelos tipos de uso do solo que predominam.
Um roteiro para a conservação de insetos
Figueroa aponta as aves como um caso de sucesso em conservação. A diferença, segundo ela, não é que aves sejam mais fáceis de estudar. É que foi possível construir coalizões amplas.
“A pesquisa mostra que os melhores esforços de conservação acontecem quando coalizões amplas e diversas se unem”, disse ela, destacando que caçadores, observadores de aves, ONGs e outros grupos se alinharam em torno de um objetivo comum.
Insetos e aracnídeos raramente despertam esse tipo de apoio. Mas os ecossistemas dependem deles - e não dá para proteger o que não é medido.
“Os insetos e os aracnídeos são mais do que objetos de medo”, disse Walsh. “Precisamos valorizar sua importância ecológica, e isso começa com a coleta de mais dados.”
Se existir um “apocalipse dos insetos” - ou mesmo um declínio mais discreto - talvez não o percebamos a tempo. O primeiro passo é simples: contar o que existe e avaliar o que está em risco.
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