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Cães que uivam com música: estudo de Aniruddh Patel na Tufts University

Pessoa toca piano enquanto cachorro de pelagem cinza e branca canta ao lado em ambiente interno.

Muitos vídeos virais mostram cães “cantando” com os seus tutores. A reação mais comum é rir, mas, ao observar melhor, surgem indícios de que alguns cães podem ter uma espécie de aptidão musical: eles acompanham o som e tentam ajustar a altura do uivo do jeito deles.

O psicólogo Aniruddh Patel, da Tufts University, em Massachusetts, liderou um estudo para investigar essa possibilidade. A pergunta era direta: os cães conseguem perceber a altura do som - isto é, se ele é mais agudo ou mais grave?

Cães e musicalidade

A pesquisa trabalhou com cães que já tinham o hábito de uivar junto com músicas. Os tutores tocaram canções e gravaram as respostas dos animais.

Depois, as mesmas faixas foram reproduzidas novamente, só que com a altura ligeiramente mais alta ou mais baixa. Assim, os pesquisadores puderam verificar se os cães alteravam o uivo conforme o que estavam ouvindo.

Entre humanos, é fácil adaptar a voz ao cantar em grupo para que todos fiquem afinados. Essa capacidade costuma aparecer de forma espontânea, mesmo sem aulas de canto.

Por causa disso, cientistas passaram a considerar que outros animais talvez também tenham uma versão simples desse mecanismo e consigam ajustar as próprias vocalizações ao escutar outras “vozes”.

Inspiração nos lobos

A inspiração veio dos lobos. Na natureza, eles uivam juntos em grupo. Cada lobo produz um uivo com uma altura um pouco diferente, criando um som intenso e complexo.

Esse efeito combinado pode fazer a alcateia parecer mais forte. Também pode ajudar os indivíduos a manterem contato. Alguns pesquisadores defendem que os lobos ajustam a altura do uivo de propósito para gerar esse resultado.

Testar essa hipótese diretamente em lobos selvagens é complicado. Por isso, a equipe recorreu aos cães - especialmente a raças mais próximas dos lobos.

Por que raças antigas importam

O estudo concentrou-se em Samoiedas e Shiba Inus. Essas são raças antigas, com vínculos genéticos com lobos, o que as torna úteis para examinar comportamentos mais “naturais”.

A equipe apostava que esses cães poderiam mostrar sinais de controle de altura vocal. Como descreve o artigo, raças antigas “compartilham mais semelhança genética com lobos do que as raças modernas”.

Para entrar na análise, os cães precisavam produzir muitos uivos. Cada um tinha de registrar pelo menos 30 uivos, garantindo resultados mais precisos e conclusões mais confiáveis.

Cães musicais que uivam afinados

Nos Samoiedas, o padrão foi bem nítido. Os quatro cães desse grupo mudaram a altura do uivo quando a música mudou. Alguns tornaram o uivo mais agudo, enquanto um deles foi para uma altura mais grave.

Segundo o estudo, os Samoiedas “mudaram significativamente a altura vocal média ao uivar com música cuja altura havia sido deslocada”. Em outras palavras, não parecia ser uma resposta ao acaso.

O ponto central é que as alterações não foram explicadas por excitação ou variações de humor. A duração dos uivos permaneceu igual. Isso indica que a mudança de altura foi controlada e relevante.

Com os Shiba Inus, o comportamento foi diferente. Eles não ajustaram a altura na mesma medida. Mesmo com a música alterada, os uivos ficaram praticamente iguais.

Isso sugere que a habilidade não é uniforme entre cães. A genética pode influenciar a forma como eles respondem aos sons. Um estudo com um grupo maior de animais poderia ajudar a confirmar essa hipótese.

Além das habilidades musicais humanas

Os resultados também oferecem pistas sobre a origem da música em humanos. Nós conseguimos igualar a altura ao cantar juntos, e muitos especialistas supunham que essa competência derivaria de capacidades ligadas à linguagem.

Só que cães não têm uma linguagem complexa - e, ainda assim, alguns conseguem ajustar a própria altura vocal. O artigo argumenta que essa aptidão pode evoluir independentemente de um aprendizado vocal complexo.

Isso aponta para a possibilidade de habilidades “musicais” serem mais antigas do que a linguagem humana. Antes da fala se desenvolver, humanos primitivos podem ter usado sons para se conectar com outras pessoas.

Música soa como um chamado

Outra dúvida é por que, afinal, alguns cães uivam junto com música. Uma explicação é que eles interpretam a música como um chamado de outro animal.

Ao ouvir uma canção, o cão pode perceber aquilo como se fosse outra voz chamando. Isso pode disparar uma resposta parecida com a de lobos uivando em alcateia.

Também é comum que os cães pareçam concentrados durante o uivo. Isso sugere envolvimento com o som, e não apenas uma tentativa de obter atenção ou recompensas.

Cães musicais e comportamento animal

A pesquisa abre novas perguntas sobre a relação entre animais e música. Ela indica que algumas espécies podem não apenas ouvir, mas também responder de modo sofisticado.

Ao estudar cães, cientistas podem avançar na compreensão das origens da música e da comunicação. Os achados reforçam a ideia de que a musicalidade talvez não seja exclusivamente humana.

Então, na próxima vez que um cão uivar junto com uma música, vale prestar atenção - pode ser um exemplo simples de uma capacidade musical se manifestando diante de nós.

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