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Ronan, a leoa-marinha-da-califórnia que sincroniza o ritmo melhor que alguns humanos

Leão-marinho sobre mesa em laboratório com dois jovens pesquisadores ao fundo observando e sorrindo.

Ritmo no reino animal

Ter “senso de groove” não é uma exclusividade humana, embora pareça ser algo raro entre os animais. Chimpanzés conseguem seguir uma batida, mas fazem isso com um desempenho inferior ao de Homo sapiens. Há, porém, uma espécie de lêmure que se sai melhor.

Ainda assim, uma leoa-marinha-da-califórnia (Zalophus californianus) de 16 anos chamada Ronan supera todo mundo - inclusive algumas pessoas. Um novo estudo indica que a capacidade dela de se mover no tempo certo não se limita a repetir o que aprendeu em alguns andamentos: Ronan consegue sincronizar os movimentos com ritmos inéditos, o que sugere que, depois de ser treinada sobre o que fazer, ela foi capaz de se ajustar e manter o compasso em vários tempos.

"Ela é incrivelmente precisa, com variabilidade de apenas cerca de um décimo de um piscar de olhos de um ciclo para o outro", afirma o neurocientista comparativo Peter Cook, da Universidade da Califórnia em Santa Cruz e da Faculdade Nova da Flórida.

"Às vezes, ela pode acertar a batida 5 milissegundos antes; às vezes, pode chegar 10 milissegundos depois. Mas, no geral, ela acerta o alvo rítmico de novo, de novo e de novo."

Quem é Ronan e como foi treinada

Ronan, que vive no Laboratório Marinho de Long da UC Santa Cruz, já tinha chamado atenção em um artigo publicado em 2013, que descreveu sua capacidade fora do comum de marcar o tempo. Aos três anos, ainda jovem, ela foi treinada para balançar a cabeça seguindo um metrônomo, e depois músicas, ajustando o compasso conforme o andamento do metrônomo mudava.

Trabalhos posteriores levantaram dúvidas sobre se a precisão de Ronan poderia mesmo se aproximar da humana, já que os resultados iniciais apontavam uma variabilidade de tempo um pouco maior do que a normalmente observada em estudos com pessoas. Outros pesquisadores também questionaram o grau de treino ao qual Ronan foi submetida e se a marcação de tempo dela resulta dos mesmos mecanismos neurobiológicos envolvidos no ritmo humano.

Nos 12 anos seguintes, Cook e colegas deram a Ronan, de vez em quando, uma “aula rápida” de dança - pouco tempo, algo como 10 a 15 segundos por vez, aqui e ali - somando cerca de 2,000 sessões.

"Ela com certeza não foi treinada em excesso", explica Cook. "De forma realista, se você somasse toda a exposição rítmica que Ronan teve desde que está conosco, isso provavelmente ficaria pequeno perto do que uma criança típica de um ano já ouviu."

O teste com novas batidas e a comparação com humanos

Agora, já adulta, a habilidade de Ronan de manter a batida não apenas ficou melhor - ela também passou à frente de algumas pessoas. Em um estudo de acompanhamento, os pesquisadores avaliaram a capacidade dela de se mover no tempo de uma caixa tocada em andamentos de 112, 120 e 128 batidas por minuto (bpm) - sendo que os tempos mais alto e mais baixo eram andamentos aos quais ela ainda não tinha sido exposta.

Em seguida, 10 estudantes universitários de graduação passaram pelo mesmo teste com os mesmos sons, com a tarefa de acompanhar a batida por meio de movimentos do antebraço.

"Comparamos o desempenho de Ronan ao dos adultos que testamos", escrevem os pesquisadores, "oferecendo a primeira avaliação comparativa, em condições equivalentes, do acoplamento rítmico entre humanos e não humanos com capacidade estabelecida de manter o compasso".

Nenhum humano superou Ronan em todos os testes. O intervalo de tempo do andamento, o intervalo de movimento e o ângulo de fase - medidas do quão perto os movimentos estavam da batida - ficaram mais próximos de uma sincronização perfeita do que os de pelo menos parte dos participantes em todos os testes. Além disso, a precisão dela ao marcar o tempo foi visivelmente maior em andamentos mais rápidos.

Em 112, 120 e 128 batidas por minuto, o andamento médio executado por Ronan foi de 113.1, 121.6 e 129.0 batidas por minuto. Já os andamentos médios dos humanos, para os mesmos valores, foram de 112.4, 119.3 e 126.2, respectivamente.

Os achados sugerem que animais não humanos podem ser treinados para manter um ritmo, desde que se sintam motivados para isso. Na natureza, muitos provavelmente não teriam motivo para fazer esse tipo de sincronização; já em laboratório, onde há recompensas e elogios, o comportamento ajuda cientistas a entender a inteligência animal e como esses animais processam informações, especialmente ao amadurecerem.

"Um dos resultados mais importantes do estudo é o fato de que maturação e experiência importam", diz a especialista em comportamento animal Colleen Reichmuth, da UC Santa Cruz. "Não é apenas um teste de desempenho rítmico. Isso reflete o comportamento cognitivo dela e sua capacidade de lembrar e refiná-lo ao longo do tempo."

Vale destacar que Ronan foi bem recompensada por participar: "Quando a sessão de teste foi concluída, os participantes humanos foram agradecidos e receberam mais detalhes sobre a natureza do estudo. Ronan recebeu um brinquedo recheado com peixe e gelo."

A pesquisa foi publicada na revista Relatórios Científicos.

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