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Ratão-lavador: pode virar o novo cão ou gato?

Jovem alimenta um guaxinim em mesa com fotos e tablet exibindo crânio de guaxinim.

Com a “máscara” no rosto e dedos incrivelmente habilidosos, os ratões-lavadores são inegavelmente fofos - e não é raro que a ideia de tê-los como animal de companhia passe pela cabeça de algumas pessoas. De fato, esse onívoro parece ter se ajustado, em parte, ao nosso jeito de viver, embora continue sendo um bicho totalmente selvagem.

Ratão-lavador: da França aos EUA, um selvagem cada vez mais urbano

O ratão-lavador (Procyon lotor) não é uma espécie nativa do território francês, mesmo que existam algumas populações ferais no nordeste (Aisne, Oise, Ardennes). Levados para lá por ação humana, esses animais teriam escapado de bases militares americanas nos anos 1960 e estima-se que hoje sejam várias dezenas de milhares - motivo pelo qual receberam o estatuto de espécie exótica invasora (EEE). Já nos Estados Unidos, sua área de origem, há de 5 a 10 milhões espalhados por praticamente todo o país.

Trata-se de um animal considerado antropófilo (isto é, que busca a proximidade com humanos) e um “ocupante” nato: um oportunista que conquistou as cidades americanas com uma eficiência impressionante. Não por acaso, por lá ele ganhou o apelido de “pandas do lixo”, já que a cena de um ratão-lavador saindo de uma caçamba virou um clichê dos subúrbios.

Um estudo publicado em 2 de outubro de 2025 na revista Frontiers in Zoology chegou a sugerir que, ao vasculhar nossos resíduos com tanta frequência, eles talvez estejam entrando no mesmo caminho evolutivo que cães e gatos. É daí que vem a pergunta (voluntariamente simplificadora) que costuma aparecer em títulos sobre o tema - ainda que ela misture três conceitos que a etologia trata como coisas diferentes.

Adaptação, amansamento, domesticação: em que ponto está o ratão-lavador?

Quando se fala em ratões-lavadores como “novos cães”, usa-se um atalho semântico bem impreciso, que vale desmascarar: trata-se de uma leitura antropomórfica pouco conectada à realidade do animal.

Domesticar uma espécie significa alterar seu património genético ao longo de dezenas de gerações, até que os filhotes já nasçam modificados - no corpo e no comportamento - independentemente de qualquer contacto individual com humanos. Gatos, cães, cavalos, vacas e ovelhas dependem inteiramente das pessoas para sobreviver, e cada um foi domesticado há 5 000 a 30 000 anos (a depender da espécie).

Amansar, por sua vez, é fazer um animal selvagem aprender a tolerar o ser humano durante o tempo de vida dele, sem que isso seja transmitido à descendência. É o caso, por exemplo, do guepardo, do elefante-asiático, do falcão ou do corvo-marinho, que podem dividir certas rotinas connosco porque, por hábito ou adestramento, superaram a desconfiança natural em relação às pessoas.

adaptação é o termo usado para descrever a pressão seletiva que um ambiente novo exerce sobre uma população inteira, geração após geração: alguns traços encaixam melhor no meio e acabam “ficando”, enquanto outros se perdem. Foi o que aconteceu com o pombo-das-rochas que deu origem ao pombo urbano, com a raposa-vermelha, com a chapim-real e com populações de camundongos citadinos. Nenhuma dessas espécies foi adestrada ou selecionada pelo ser humano; elas apenas ocuparam a nova nicho ecológico que as nossas cidades abriram.

É exatamente aqui que o ratão-lavador estacionou: a convivência mais estreita com humanos é muito recente, iniciada no século XX com a expansão urbana norte-americana e acelerada de forma clara desde os anos 1980.

O que o iNaturalist revelou sobre a vida urbana do ratão-lavador

No trabalho mencionado acima, pesquisadores analisaram 19 495 fotos de ratões-lavadores enviadas ao iNaturalist, uma plataforma de ciência cidadã em que o público registra a fauna que encontra. A conclusão foi que, em média, o focinho dos indivíduos de áreas urbanas é 3,56 % mais curto do que o de seus parentes rurais. Esse detalhe anatómico foi apontado como um primeiro sinal da “síndrome da domesticação, um conjunto de traços (face encurtada, orelhas caídas, despigmentação) que tende a reaparecer, de forma recorrente, na grande maioria das espécies domesticadas.

Os autores interpretam essa mudança com base na hipótese das células da crista neural. A crista neural é um grupo de células embrionárias que, bem cedo no desenvolvimento, migra para diferentes partes do corpo e dá origem, entre outras coisas, às cartilagens do focinho, à pigmentação e a certas glândulas suprarrenais ligadas à resposta ao medo.

A sobreposição desses dois mecanismos biológicos ajudaria a entender por que ratões-lavadores com a face mais curta também tenderiam a ser os mais dóceis: seriam dois lados do mesmo fenómeno. Como esse traço aparece com mais força em populações urbanas, os autores veem nisso um indício de que a proximidade com pessoas vai selecionando, pouco a pouco, os indivíduos menos medrosos - e que a cidade funcionaria quase como um “filtro” que favorece temperamentos mais tranquilos.

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Dá para transformar o ratão-lavador em animal de companhia?

Se a resposta tiver de ser direta: de jeito nenhum. “Embora as modificações morfológicas [dos ratões-lavadores] possam ter uma base genética, essas mudanças podem ocorrer por múltiplas razões”, explica Lauren Stanton, pesquisadora do Schell Lab da Universidade de Berkeley. “As variações no formato do crânio, por exemplo, poderiam estar ligadas a uma mudança de dieta, porque muitas espécies urbanas passam a consumir alimentos mais macios e ricos em carboidratos que encontramos no nosso lixo”, continua ela.

Um ratão-lavador pode, sim, passar a associar um humano a uma fonte de comida “gratuita”, depois de perceber que as lixeiras frequentemente oferecem um banquete fácil. Com isso, ele pode parecer menos arisco - sem que isso signifique cruzar a linha da domesticação.

Por que ele seria um péssimo “colega de casa”

Mesmo que o processo estivesse realmente em curso (o que levaria séculos ou milénios), o ratão-lavador seria um coabitante desastroso. Como é noturno, ele passa o dia escondido e dormindo, e vira um turbilhão à noite: sibila como se estivesse possesso e sai pulando por todos os lados, alternando picos de hiperatividade com cochilos curtos para “recarregar”. Depois de duas horinhas de paz, invariavelmente viria um salto de fé do topo do frigorífico - ou uma emboscada feroz para agarrar seus tornozelos.

Com as patas de cinco dedos, ele tem uma destreza desconcertante, o que vira um pesadelo dentro de casa. Ele aprende a abrir maçanetas, trincos, torneiras (que nunca fecha), frigoríficos e ainda consegue desmontar grelhas de ventilação ou mexer em tomadas.

E saqueia sem cerimónia as reservas de uma casa inteira, porque consegue comer praticamente tudo. Quando é filhote, parece irresistível; mas, ao chegar à maturidade sexual, por volta de um ou dois anos de idade, tende a ficar muito territorial, agressivo e sujeito a mudanças bruscas de humor.

O caso de Rebecca, o ratão-lavador de Grace Coolidge

Até Grace Coolidge, que era apaixonada por sua ratão-lavador Rebecca (mencionada anteriormente), precisou lidar com os caprichos da “princesa”. A pequena terrorista desrosqueava lâmpadas, destruía plantas em vasos, rasgava roupas e escapava da Casa Branca com tanta frequência que os funcionários a apelidaram de “Houdini. Ela chegou a morder o presidente, deixando-o com o pulso enfaixado.

No fim do mandato, em 1929, como não tinham como levá-la, os Coolidge a entregaram ao zoológico de Washington. Lá, sem conseguir se adaptar ao cativeiro, ela teria morrido pouco depois. Portanto, não: o ratão-lavador não vai se juntar ao cão e ao gato na prateleira dos companheiros ideais. No máximo, conquistará um lugar de destaque no panteão dos animais insuportáveis que é melhor admirar de longe. Isso também faz parte do encanto dele: no dia em que ele ficar quietinho numa sala de estar, já não será mais um ratão-lavador.

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